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quarta-feira, 14 de março de 2012

Assédio Moral

Nesta entrevista a Dra. Margarida Barreto, médica ginecologista e do Trabalho, pesquisadora do Núcleo de Estudos Psicossociais de Exclusão e Inclusão Social (Nexin PUC/São Paulo), explica o que é assédio moral e como o trabalhador deve procurar ajuda e alerta: “Quem é humilhado sistematicamente, pode sair das ideações suicidas e agir, rumo a morte, tirando a própria vida, por não suportar o sofrimento”.

Diesat: O que é assédio moral?
Dra. Margarida Barreto: Assediar alguém significa estabelecer um cerco e não dá trégua ao outro, humilhando, inferiorizando e desqualificando-o de forma sistemática e repetitiva. São ataques verbais e gestuais, perseguições e ameaças veladas ou explicitas; fofocas e maledicências que ao longo do tempo, vão desestabilizando emocionalmente e devastando a vida do outro.

Para a UNIÃO EUROPEIA o assédio moral é um comportamento negativo entre colegas ou entre superiores e inferiores hierárquicos, em que a vitima é objeto de ataque sistemático por longo tempo, de modo direto ou indireto, contra uma ou mais pessoas.

Já a Organização Internacional do Trabalho considera-o todas as vezes em que uma pessoa se comporta para rebaixar o outro, através de meios vingativos, cruéis, maliciosos ou humilhantes contra uma pessoa ou um grupo de trabalhadores. São críticas repetitivas e desqualificações, isolando-o do contato com o grupo e difundindo falsas informações sobre ele.

Qualquer que seja o conceito usado, no assédio há sempre um núcleo ou matriz que encontramos em todos os países, mostrando que estamos ante uma tortura psicológica nas relações interpessoais no local de trabalho, o que nos leva a considerá-la como um problema de saúde publica. Nesta matriz, encontramos algumas táticas que se repetem: isolar, ignorar, desqualificar, desmoralizar, desestabilizar, degradar as condições de trabalho e forçar a pedir demissão ou desistir do emprego, do projeto, da empresa. Resumiríamos, afirmando que em todos os casos de assédio moral encontramos:

-Repetitividade e persistência da ação
-Intencionalidade
-Temporalidade e direcionalidade
-Degradação das condições de trabalho

Os efeitos são devastadores a vida (físico/psicológico) das pessoas que são humilhadas e sofrem agressões verbais e outros atos de constrangimento, quer no âmbito publico ou privado (a portas fechadas). Aqui, a diferença está na relação de poder estabelecida, que pode ser assimétrica ou simétrica com atos de violência explícitos ou sutis.

Diesat: De que forma o trabalhador é assediado no ambiente de trabalho?
Dra. Margarida Barreto: Leymann, o primeiro estudioso do tema, a pratica do assédio moral envolve mais de 40 atos que fazem parte de um processo que ocorre ao longo do tempo, por um período de seis meses. Para ele, existe o assédio moral quando há uma relação assimétrica de poder e este, pode ser em conseqüência de uma experiência maior ou mesmo, uma maior proximidade com a alta hierarquia. Deste modo, ele catalogou quatro grandes grupos de ações: ações contra a dignidade; ações contra o exercício do trabalho; manipulação da comunicação e ações de iniqüidade.

Como exemplo de ações muito comuns aqui em nosso país, citaria: isolar dos colegas e ignorar sua presença; dar instruções confusas, sobrecarregar trabalho, bloquear o andamento do trabalho, criticar em publico, constrangendo-o ou desqualificando-o; impor horários injustificados; caluniar; disseminar fofocas e maledicências; transferir de setor sem conhecimento prévio; proibir colegas de conversar, almoçar entre tantos outros atos, contanto que reforce o lema. “Não falte para não perceberem que você não faz falta”, passando a idéia que o trabalhador é um inútil, ou que faz é tão pouco que não tem valor para a Empresa.

Diesat: Quando começaram as discussões sobre o problema?
Dra. Margarida Barreto: Na Europa, o tema foi bastante discutido por Leymann e posteriormente, Marie France Hirigoyen. Aqui no Brasil, começamos a ouvir atentamente os trabalhadores que eram humilhados em seu local de trabalho desde o inicio a partir de 1993. Sabíamos que humilhar o outro não era novo. Mas, os relatos que nos chegavam, eram freqüentes. O fato é que a intensificação das humilhações no trabalho coincide com as mudanças que ocorreram na forma de organizar o trabalho e nas políticas de gestão, nestes últimos 30 anos. Mudou o discurso e novos rótulos surgiram para velhas questões. Por exemplo, ser flexível passou a apontar um novo horizonte de expectativas no qual o trabalhador agora denominado de “colaborador”, deverá estar sempre motivado, ser dinâmico e comunicativo, aberto para os novos desafios, ter capacidade para trabalhar em grupo, ser criativo e competitivo como forma de ascender no mundo do trabalho e em especial ser dedicado a empresa e seu trabalho. O discurso é sedutor, pois a flexibilidade deve ser aceita e internalizada por todos; é uma forma de compensar a insegurança que passo aparecer a partir das demissões massivas e reestruturações constantes. Cada um deve suportar o novo desafio, a nova sobrecarga e mostrar que é capaz de se ajustar aos novos tempos. Com poucas pessoas executando mais tarefas, sob intensa pressão para produzir, não precisamos refletir muito para constatar as consequencias que isso traria no tempo: novas doenças e mais demissões. Fomos percebendo que as humilhações neste contexto, era algo que fazia parte da micropolitica de controle empresarial e que se manifestava na corrente dos gestos cotidianos. Estávamos diante de uma ferramenta de controle dos gestos, da voz, dos pensamentos e emoções. Assim, devemos avaliar as novas doenças, os novos riscos emergentes em associação as mudanças no mundo do trabalho e que foram profundas. Ressalto também que a reestruturação produtiva veio acompanhada de desregulamentações das relações de trabalho, de flexibilização dos direitos, da adoção de novas políticas de gestão quer por injuria ou pelo medo, de controle rígido e disciplinar dos trabalhadores, da colonização do imaginário, quer por política de punição aos que não alcançaram as metas ou por premiação dos “bons” na capacidade de ultrapassá-las e dá produção. É um ambiente propicio para instaurar o conflito entre colegas e a competitividade, passa a ser a regra.

Sabemos que as empresas estão mais preocupadas em aumentar seus lucros com poucos gastos que com a saúde dos seus trabalhadores. O que importa é faturar cada vez mais e o trabalhador que adoece vira peça descartável e que deve ser trocada. Então ser flexível para o capital, é ser capaz de se adaptar, em reagir ao invés de agir; em aceitar ao invés de resistir e lutar.

Porque afirmo isso? Quando o trabalhador adoece, envelhece ou questiona praticas ilícitas ou não se submete as normas que lhes são impostas, perde o valor e torna-se uma “persona non grata”, o que o obriga, freqüentemente, a deixar a empresa. O valor do trabalhador está em ser guerreiro 24 horas, não adoecer, não ter família, não ter preocupações e preferencialmente, que todo o seu pensamento e emoções, estejam direcionados ao bem estar da empresa. Logo, todo assédio tem como intencionalidade forçar o outro a desistir do emprego, pedindo a demissão ou mesmo desistindo de um projeto ou mudando de setor, de Estado.

Diesat: Existe uma categoria que apresente mais denúncias relacionadas a assédio moral?
Dra. Margarida Barreto: Hoje, é difícil você dizer qual a categoria que não tem assédio moral nas relações de trabalho. Isso porque o assedio tem como causalidade a organização do trabalho e uma cultura organizacional que mantém e reproduz a “voz” da organização, como verdade absoluta e inquestionável. Mas, poderíamos apontar as categorias em que é muito comum: saúde, educação, comunicação em especial com os jornalistas e o setor de serviços, como por exemplo, os bancários.

Diesat: Como o movimento sindical pode auxiliar trabalhadores que sofrem assédio?
Dra. Margarida Barreto: Em primeiro lugar, o dirigente deve ouvir seu companheiro. É necessário que os dirigentes compreendam e conheçam esse novo mundo do trabalho nesta nova configuração, em que os trabalhadores foram transformados em nômades do trabalho e das relações, vivendo uma sociedade sem emprego, com uma vida limítrofe e caótica, tendo que se submeter à exploração. É necessário que os dirigentes conheçam os novos riscos emergentes, reflitam a cultura empresarial, que escutem e compreendam a voz daqueles que sofrem, adoecem e morrem do/no trabalho. Se não conhecem o que acontece de fato no intra-muros, a ação se restringe a julgar ou encaminhar o trabalhador assediado para o medico ou o departamento jurídico, em atos e ações individualizadas. E as ações coletivas, ficam esquecidas.

Se não tivermos uma práxis compromissada com classe trabalhadora, poucas vitórias alcançaremos. Digo isto, pois vejo por esse Brasil, muitos “dirigentes” que sequer sabem o que ocorre dentro daquela empresa em que ele um dia, trabalhou e isso leva a atitudes de indiferença em relação à dor do outro. Falta reflexão-ação, sonhos pessoais que se mesclem com os sonhos coletivos, falta luta ativa, organização por local de trabalho, mobilização e compromisso de classe! Pensar em eliminar o assédio moral das relações laborais passa pela luta por justiça, por dignidade, por generosidade, por respeito nas relações de trabalho, por uma nova forma de organizar o trabalho em que a cultura reforce a autonomia e criatividade para pensar e fazer; que a vida daqueles que produzem riquezas, seja privilegiada em sua plenitude. Um sindicalismo “combativo” não pode defender os interesses do capital, viabilizando a existência de empresas que matam e adoecem centenas de trabalhadores anualmente, com a desculpa que está preservando o emprego. Aqui, é uma questão de defesa da vida. Não podemos sair de um sindicalismo de contestação e caminhar para um sindicalismo de “viabilização das empresas. Enquanto esse cenário persistir, assistiremos o aumento da exploração no trabalho – que é uma face da violência – a intensificação da flexibilidade, mobilidade e humilhações para produzir, sob o olhar passivo do movimento sindical

Diesat: Quais são as conseqüências na saúde destes trabalhadores?
Dra. Margarida Barreto: Quem sofre o assédio moral no trabalho, manifestará algumas reações. A primeira seria uma reação social cuja resposta corporal a ação nociva, se manifesta como isolamento social, ressentimentos, tristeza, reprodução da violência em outros espaços e até mesmo com filhos. Há aumento do uso de drogas, quebra dos laços afetivos e muitas crianças de país que sofreram violência no trabalho, tem menor desempenho na escola. Em segundo lugar, a pessoa assediada sente um mal estar que se manifesta no julgamento negativo de si, como se fosse sem valor ou mesmo um lixo.

Além das varias alterações cotidianas, devido aos pensamentos repetitivos e recorrentes, com o tempo, começam a apresentar doenças e danos psíquicos com idéias de indignidade, esquecimentos, choro freqüente e que podem caminhar para a depressão, o burn-out, a síndrome do pânico e outros transtornos da esfera mental E por ultimo, quem é humilhado sistematicamente, pode sair das ideações suicidas e agir, rumo à morte, tirando a própria vida, por não suportar o sofrimento.

Assim o assédio moral gera morte. A Marie France lembra que “Não se morre diariamente de todas as agressões, mas perde-se uma parte de si a cada noite, volta-se para casa exausto, humilhado, deprimido. É a repetição do ato que é destruidor”. Estamos diante de um risco que tem repercussões na família, desestruturando-a freqüentemente e devastando a vida daquele que sofre a violência moral ou psicológica no local de trabalho. Estamos falando de mais um risco no ambiente de trabalho, que causa danos a dimensão física, psíquica, moral, intelectual, social, cultural ou espiritual do ser humano.

Daí a necessidade de compreender essa relação capital x trabalho para atuar com compromisso de classe, pois ter saúde, ser livre e feliz, envolve a ordem do conhecimento, da razão livre, dos bons encontros, da compreensão não somente de si mesmo, mas dos outros e somente com os outros podemos transformar o mundo do trabalho e a sociedade em que vivemos.

Diesat: O que levou a doutora a pesquisar sobre o tema?
Dra. Margarida Barreto: Comecei a trabalhar no Sindicato dos Químicos ao final de 1992, logo após o término do curso de especialização em medicina do trabalho. E neste espaço passei a ouvir historias de sofrimento e compreendi desde o inicio que a dor colocada não era resultante de fraquezas individuais. Ao contrário: estava diante de guerreiros e guerreiras da produção e que após dá a vida em uma determinada empresa, sentiam-se traídos porque adoeceram ou porque questionaram a empresa e como resultado, mudava a forma da empresa de lidar com eles.

As histórias de sofrimento me atravessavam e na tentativa de ajudá-los ativamente, procurei a Psicologia Social da PUC/SP para fazer o mestrado. Lá, sistematizei uma pesquisa que resultou na escuta atenta de 2072 trabalhadores de 97 empresas do ramo químico, plástico, cosmético e farmacêutico e cujo nome da dissertação foi dado por um trabalhador que após contar sua historia, me disse: “eu vivo dentro da empresa uma jornada de humilhações”. Ele me deu o nome e a chave da compreensão dos gritos de sofrimento que escutava.
Fonte: Diesat

terça-feira, 13 de março de 2012

Templos do chá

Uma viagem pela história do chá em lojas especializadas na mágica bebida

Apreciar uma xícara de chá pode ser um ato muito mais rico e saboroso do que se imagina. Com sua história ligada à própria história das civilizações, a camellia sinensis, planta originária das florestas do Himalaia, já foi artigo mais raro – e caro – do que o próprio café no Ocidente, a ponto de seu consumo ser considerado símbolo de status e sofisticação.

Fazer uma pausa em uma loja de chá é atitude nobre, digna de paladares sofisticados

Chás pelo mundo:

http://luxo.ig.com.br/bebidasebaforadas/todas+as+combinacoes+organicas+da+bellocq/n1596824366009.html

http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2220/cha-sgourmet-vira-especialidade-em-novas-casa

http://luxo.ig.com.br/bebidasebaforadas/talentos+reunidos+na+twg+tea/n1596824352325.html

Mas somente na Londres de 1732 é que o requinte tornou-se público, com a abertura da primeira casa de chá da Europa, a Vauxhall Gardens. Mais do que marco comercial para estimular ainda mais o consumo da bebida, a iniciativa também teve seu marco histórico ao abrir espaço para a participação das mulheres na vida social fora de casa, numa época em que eram excluídas dos cafés.

Ainda hoje, fazer uma pausa em uma loja de chá é visto como atitude nobre, digna de paladares sofisticados.

Da tradicional delicatessen Fortnum & Mason, fundada em 1707, onde ainda hoje é possível encontrar uma das maiores ofertas de chás – e delicadezas associadas a ele – de Londres, à queridinha sul-americana Tealosophy, comandada pela expert Inés Berton, ao lado do hotel Alvear, em Buenos Aires na Argentina, passando pela Mariage Frères, instalada em Paris desde 1854, as lojas de chá pelo mundo se tornam templos de prazer e bem-estar, onde o tempo parece correr da forma mais serena.

Selecionamos três paradas imperdíveis ao redor do mundo – Nova York, Cingapura e São Paulo – para você saborear sua chávena e descobrir outras histórias – e sabores – sem pressa.

Acompanhe nos links acima.

Fonte: Portal iG

segunda-feira, 12 de março de 2012

Para ficar linda, ela ficou rica

Mais de 70 mil clientes entregam madeixas rebeldes todo mês à Beleza Natural, tornando Zica uma das mais bem sucedidas empresárias do setor no Brasil





Foto: Divulgação / Os cachos de Zica ficaram como ela sempre quis, e a conta bancária, como nunca imaginou

“O teu cabelo não nega, mulata.” O verso de Lamartine Babo é politicamente incorreto para os padrões de hoje, mas desde os anos 1990, Heloísa Helena Belém de Assis, a Zica, 50, não queria disfarçar seus crespos. “Nasci na Tijuca, na comunidade de Catrambi. Venho de uma família muito humilde. Comecei a trabalhar com 9 anos.” Filha do meio na fileira de 13 do pai biscateiro e da mãe lavadeira, Zica começou fazendo entregas de roupa lavada. “Sou a do meio, seis acima e seis abaixo”, se diverte.

Hoje, ela é dona da Beleza Natural, rede de salões de beleza especializada em cabelos cacheados. Zica não fala em números, nem gosta de expor seu endereço atual, um espaçoso apartamento em uma área nobre do Rio, onde mora com os filhos Junior, Jefferson e Claudineia, além da neta de quase dois anos. Mas sua rede, que começou num fundo de quintal, faturou R$ 19 milhões em 2005, último ano em que números oficiais foram divulgados. De 2005 para cá, o número de clientes dobrou – hoje são 70 mil. A rede se expandiu e onze unidades, nove no Rio, uma no Espírito Santo e outra na Bahia. Junto com a fábrica, a rede emprega 1.300 pessoas. O preço dos kits de produtos varia entre R$ 38,90 e R$ 51,50. A aplicação de Super-Relaxante, carro chefe da empresa, varia entre R$ 67,90 e R$ 87,90.

Antes de pensar em ter um negócio, Zica fez de tudo um pouco, sempre lidando com clientes. Vendeu roupas íntimas e cosméticos de porta em porta, por exemplo. Casada e já com filhos, para segurar a renda, foi babá e fazia faxina em mansões “grandiosas” no Alto da Boa Vista.

Mas tinha uma preocupação: sempre reclamou que trabalhar com público com cabelo sem tratamento não dava. E não queria perder suas características correndo para o alisamento, o que era comum. “Meu sonho era ter o cabelo balançando, sem tirar a originalidade dele. Era complicado trabalhar com o cabelo assim, volumoso e ressecado”, conta. As patroas não gostavam, mas Zica não queria alisar. “Quem queria empregar quem tinha o cabelo assim, enorme? Era grande, alto, um bolo de cabelo. As pessoas associavam a sujeira, desleixo.” Zica fez alisamentos uma vez, para nunca mais. Aos 14 anos, odiou o resultado e o cabelo que sofreu com a química pesada. “Os fios ficaram finos, quebradiços, o cabelo não crescia como tinha que crescer.” Ela cortou e voltou para o estilo “Black power”, à moda dos anos 70.

Curso de cabeleireiro

Entre uma e outra faxina, se inscreveu no curso de cabeleireiro na paróquia São Camilo de Lellis, a igreja da comunidade onde vivia. Passou um mês aprendendo a conhecer e lidar com seus fios. “Aos 21 anos, fui fazer o curso e aprendi tudo que o mercado oferecia. Queria achar solução para meu cabelo, não fui atrás para trabalhar com isso. Queria saber como era o meu fio”, conta. “Eu era fissurada nos meus cachos e me negava a passar esses produtos para alisar.”

Foto: Divulgação / Zica à frente de um de seus onze salões, que atendem 70 mil clientes por mês

Ela começou a misturar materiais em busca da fórmula perfeita, que garantisse cachinhos cheios de movimento. Conversando com fornecedores, conseguiu matéria-prima para fazer experiências, misturou cremes que já existiam no mercado, testou tudo que havia para cabelos crespos. “Levei dez anos para chegar na fórmula do Super Relaxante”, conta. “Com meu creme, o cabelo começou a pentear mais macio, a maleabilidade era melhor, passou a ficar com balanço. Mexeu com minha autoestima e com a das pessoas da comunidade”, lembra Zica. Na prática, nunca trabalhou como cabeleireira em outros salões. “No máximo cortava cabelo da minha irmã ou da minha mãe.”

Cachos com senha

O próximo passo foi abrir um salão de fundo de quintal, na Tijuca, em 1993. O único bem da família era um Fusca, que ela convenceu o marido a vender para poderem começar um negócio. “Ele sabia do meu cabelo, ele viu minha necessidade. Ele acabou vendendo o carro e abrimos o salão”. Era uma casa de dois cômodos, “de mais de 100 anos”, lembra Zica. Em pouco tempo, o boca-a-boca e a divulgação com folhetos garantiram filas na porta que viravam na esquina antes do salão abrir. A solução foi colocar um sistema de senhas (que continua até hoje), para tentar atender ao maior número possível de pessoas. A procura pelos produtos era enorme também: clientes vinham com potes de maionese e margarina para levar os xampus e condicionadores para casa.

“O salão abria às 8h da manhã e às 5h já tinha fila, com dezenas de pessoas”, conta Zica. “A gente não tinha espaço suficiente para atender essa quantidade de clientes. A essa altura, Zica já tinha chamado sócios: além do marido, vieram Rogério, irmão dela, e Leila Velez, que tinha trabalhado com Rogério no McDonald’s. “Ela tinha esse dom, e visão de como a gente tinha que crescer. Nós começamos a terceirizar a produção, patenteamos a fórmula”.

Linha de produção

“Foi um sucesso, porque o produto não existia. Todo mundo queria, nosso mercado não oferecia e também não tinha nada importado”, diz Zica. Ela ficou na operação do salão, seu marido na contabilidade e seu irmão saiu do McDonald’s para trabalhar no Beleza Natural. “Logo depois veio a Leila trazendo o marketing. Com seis meses ela entrou, porque ela tinha uma visão muito boa de como divulgar o negócio.” Eles levantaram que os clientes vinham de várias partes do Rio: Caxias, Jacarepaguá, Nova Iguaçu, Madureira, Niterói. “Vimos que estava na hora de crescer para esses lados e abrimos a primeira filial”. Em 2004, os sócios abriram a própria fábrica, a Cor Brasil Cosméticos.

Foto: Divulgação / Zica ao lado da sócia, Leila

A sócia Leila, hoje presidente da empresa, também começou cedo, aos 10 anos, fazendo entrega de roupas lavadas pela mãe e venda de cosméticos porta a porta. Aos 14 anos, entrou para o McDonald’s. Com 16, se tornou a gerente mais jovem da rede. “Precisamos até pedir uma autorização especial da matriz”, conta. Aos 19, entrou para a sociedade de Zica para trazer know-how dos empregos anteriores e criar coisas novas, que refletissem seu modo de ver o mundo – algo impossível de fazer numa empresa do porte de uma multinacional. “Acompanhei quando a Zica desenvolveu o produto, e veio muito a calhar a sociedade”, conta.

Elas instituíram uma “linha de produção” no salão, em que cada profissional se especializa em uma das sete etapas do tratamento. Fica mais rápido para a cliente mais barato para o salão. Leila migrou da faculdade de Direito para uma de administração, e daí em diante, voltou toda a carreira acadêmica para o negócio crescer. “É toda uma rede de contatos, e chances de aprender com os erros e acertos de outras empresas”, diz a sócia da Beleza Natural

A favela ficou para trás. Todo ano, as sócias viajam para a Cosmoprof, maior feira mundial de cosméticos, que acontece na Itália, para se atualizarem e sondar oportunidades no mercado. Aliás, Zica acaba de entrar em uma faculdade, onde cursa decoração. Mas confessa que já precisou matar aula para ir à feira de cosméticos.

A empresária faz questão de reproduzir oportunidades de crescimento: 70% dos funcionários são clientes da rede. “São meninas que se espelham pela minha história de vida, e vêem que podem chegar lá. Quem mais pode entender o que quer um cliente que tem o cabelo crespo?”

Fonte: Portal iG

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mulheres de primeira classe

As brasileiras da classe C, mais do que qualquer outra, estão com a autoestima em alta, decidem as compras da família e mais

Foto: Bruno Zanardo/Fotoarena
A analista de crédito Ana Carolina Pinheiro vai ao cabeleireiro todos os meses
Qual a imagem que você tem da mulher da classe C brasileira? Se é algo como ‘fica em casa cuidando dos filhos, depende financeiramente do salário do marido e não se preocupa com o visual’, esqueça tudo e comece de novo. Pesquisas de mercado vêm desvendando o universo da nova classe média, e apontam que, mais do que em qualquer outro segmento, as mulheres são protagonistas.

Dentro deste universo, que possui renda familiar entre R$1.000,00 e R$ 4.000,00, as mulheres são as protagonistas. “Mais do que nunca, o sexo feminino acabou assumindo grande parte da responsabilidade financeira da casa. Muitas vezes é a renda principal. Este cenário deu a elas um poder de decisão de compra incrível”, diz Rita Almeida sócia da CO.R Inovação, empresa de estratégia de marketing e inovação que realiza pesquisas sobre o segmento. É ela ainda que afirma que a autoestima das mulheres da nova classe média é a maior do Brasil atualmente.

“A chamada ‘nova classe média’ detém praticamente 50% do poder de consumo no Brasil. Com um número expressivo assim o mercado corre atrás para saber quais são as preferências e as necessidades deste público”, afirma. As famílias brasileiras gastaram, em 2010, mais de R$ 2 trilhões em consumo, de acordo com estudos do Instituto Data Popular. E todos estão de olho na nova classe média. Em oito anos a participação da classe C foi de 25,77% para 41,35% do total. Ao contrário, a classe AB recuou: foi de 58,51% para 42,88%.

Autoestima nas alturas

“Quando analisamos o comportamento das mulheres que se enquadram nesta faixa de renda vemos que houve uma grande evolução. Ela passou a ser mais exigente, a buscar oportunidades de consumir coisas que antes não podia e, principalmente, a ter uma autoestima bastante elevada”, declara Andrea Beatrix, gerente-geral de marketing da rede de lojas Marisa, que tem como principal público mulheres da classe C entre 20 e 35 anos.

“Estas mulheres enxergam o corpo de forma muito tranquila. A sensualidade delas não depende de estarem muito magras ou qualquer outra ‘ditadura’ com relação à beleza feminina imposta pelos meios de comunicação e pela moda. Não significa que elas tenham pouco cuidado com o visual. Muito pelo contrário: elas cuidam muito da aparência. Gastam uma parte bastante expressiva do seu dinheiro com cosméticos, principalmente produtos para cabelo, perfume e maquiagem”, revela Rita.

A auxiliar administrativa Carolina Corts, 21, reforça as estatísticas. “Eu gasto muito com maquiagem. Gosto de me sentir bonita e de me arrumar. Queria ser um pouco mais magra, mas não faço muito esforço. Estou muito feliz com meu corpo e não fico neurótica correndo atrás de padrão de beleza”.

“Não deixo de ir à academia. É um dos investimentos que faço em mim. Acho que é importante a gente se sentir bem com nossa aparência e eu me sinto ótima com a minha”, afirma a gerente de clínica de estética Alessandra Maciel Rocha, 28.

Roupa e cabelo impecáveis

“As mulheres da classe média se preocupam muito com o que vestem e com seus cabelos. Várias pesquisas nos mostram que elas estão sempre em busca de novos produtos que possam melhorar a aparência”, afirma Rita.

“Eu vou ao cabeleireiro uma vez por mês para manter o corte. Além disso, também cuido em casa. Faço escova e hidratação sempre que eu acho necessário” conta a analista de crédito Ana Carolina Pinheiro, 22. Ela diz que, às vezes, acaba perdendo o controle de seus gastos, mas que não pensa em cortar nada que a faça se sentir mais bonita.

Com cabelos bonitos e tratados, as mulheres não descuidam do vestuário. “Antigamente as clientes da Marisa não se interessavam muito por moda e tendência, mas as coisas mudaram. Hoje temos uma preocupação intensa em oferecer a elas a oportunidade de encontrar tudo isto em nossas lojas. Se está nas novelas, por exemplo, elas vão querer”, explica Andréa.

“Uma coisa que chama bastante atenção nas nossas pesquisas é que as mulheres querem roupas e acessórios fáceis de combinar entre si. É a otimização do guarda-roupa”, aponta Rita. Carolina concorda: “quando eu compro roupas sempre procuro por conforto e também quero peças que eu possa dar uma incrementada com acessórios e usar para sair à noite”.

Nem só de blusas e calças vivem as mulheres. Outro item importante para esta parcela de mulheres que está com a autoestima bem trabalhada é a lingerie. A rede popular Marisa abriu lojas segmentadas neste setor. “Temos desde tamanhos pequenos até tamanhos bem grandes. Observamos que o nosso público não para de comprar lingerie se estiver um pouco acima do peso. O que elas procuram, principalmente, é conforto e também um produto adequado ao seu corpo e à situação que ele será usado”, diz Andréa.

Educação: vale o investimento

É preciso esclarecer que as mulheres da classe média não se preocupam apenas com a aparência. Aliás, a realidade está bem longe disso. A educação e o acesso à informação são itens de extrema importância.
“Eu trabalho todos os dias para dar uma boa educação para o meu filho. Isto vem em primeiro lugar. Acredito que assim ele vai poder ter uma vida melhor”, conta Alessandra que tem um filho de 12 anos. Ela diz que controla os gastos da família e mesmo quando o marido ficou desempregado as necessidades do filho sempre foram atendidas.
Ana Carolina que terminou a faculdade de Gestão de RH no ano passado acredita que hoje é mais fácil ter acesso a uma boa educação. “Só não estuda quem não quer mesmo. Na época dos nossos pais eles precisavam trabalhar e não tinham tempo nem dinheiro sobrando para fazer faculdade, por exemplo. Já com a nossa geração eu acho que é diferente. Meu pai sempre trabalhou para que eu e meu irmão pudéssemos estudar e ter uma vida mais estável”.

Rita Almeida ressalta que vem surgindo, aos poucos, uma mudança no setor da educação. “É claro que a mulher que tem filhos prioriza os estudos deles, mas é preciso observar que elas começam a pensar em sua própria necessidade intelectual. Muitas têm o desejo de voltar a estudar”.

Fonte: Portal iG

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dona de R$ 2,7 bi pede que mulheres pisem no acelerador e sonhem alto

As palestras de Sheryl Sandberg se tornam virais no Youtube; ela é arma do Facebook para atrair talentos femininos e falar com o público que mais usa a rede social, as mulheres
The New York Times

Setenta e duas horas antes do grande momento do Facebook, Sheryl K Sandberg se encontrava a meio mundo de distância na companhia de Bono e do Arcebispo Desmond Tutu. Sim, Sandberg é a mão direita de Mark Zuckerberg. E, sim, se tudo correr bem, ela em breve irá valer US$ 1,6 bilhão ou cerca de R$ 2,7 bilhões. Na quarta-feira, o Facebook anunciou sua abertura de capital, um negócio que quase certamente irá torná-la uma das empresas mais valiosas do mundo.


Foto: Bloomberg via Getty Images/Sheryl Sandberg: em Davos, lutando pela causa das mulheres, enquanto o mundo todo falava da abertura de capital do Facebook

Mas Sandberg, que ajudou a transformar esta rede social no fenômeno que é hoje, tinha outras preocupações que iam além de registros de valores e métricas de campanhas publicitárias. Ela estava participando do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde seu assunto não era o Facebook e sim as mulheres.

Especificamente, como as mulheres, em sua opinião, devem assumir a responsabilidade por suas carreiras e não culpar aos homens por serem um obstáculo que possa impedi-las de crescer.

Levando em consideração que Sandberg é a Chief Operating Officer (Chefe de Operações, em tradução livre) do Facebook, e que todo mundo em Wall Street estava de olho nessa notícia na semana passada, poderíamos até pensar que ela estava focada no assunto errado. Mas Sandberg se vê como mais do que uma executiva de uma das empresas mais famosas do mundo - mais também do que alguém que em breve estará entre as poucas mulheres bilionárias do mundo. Ela se vê como um modelo para as mulheres que lidam com negócios e tecnologia. Em seus discursos, muitas vezes ela pede que as mulheres "mantenham o pé no acelerador sempre" e sonhem alto.

Sua vocação não é simplesmente orientar e capacitar pessoas. Ela é também criar estratégias de negócios. A maior parte dos 845 milhões de usuários do Facebook são mulheres. As mulheres também são os usuários mais engajados. Então Sandberg está servindo de exemplo para um público poderoso e lucrativo, bem como para os anunciantes que querem alcançar esse público alvo. Dentro da sede do Facebook em Menlo Park, Califórnia, ela é considerada uma arma não tão secreta, responsável tanto pela contratação de mulheres talentosas quanto de homens. Ela e Zuckerberg precisam dos melhores profissionais disponíveis para manter o impressionante crescimento do Facebook.

Claro que o fato de Sandberg ser boa em apresentações e ter uma ótima personalidade ajuda. Em Davos e no circuito de conferências, em aparições públicas em Washington e nas universidades, ela possui uma presença desarmante que a distingue de muitos outros executivos, homens ou mulheres.

Suas palestras se tornaram virais. No YouTube, alguns vídeos de seus discursos tiveram mais de 200.000 visitas. Alguns foram incluídos no currículo de escolas de negócios e administração de Stanford e Harvard. Resumindo, ela deixa transparecer algo que parece deixar muitas pessoas, particularmente as mulheres, um pouco maravilhadas.

Assista, abaixo, uma palestra proferida, em inglês, por Sheryl Sandberg, sobre os motivos de as empresas terem tão poucas lideranças femininas:
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=18uDutylDa4
http://youtu.be/18uDutylDa4


"Existem algumas mulheres que poderiam ter se tornado o 'Justin Bieber de tecnologia', mas Sheryl é única", disse Ann Miura-Ko, professora da Faculdade de Engenharia da Universidade de Stanford e uma parceira de investimento na Floodgate, uma empresa de capital de risco de Palo Alto, Califórnia. "As mulheres jovens realmente querem ser como ela e aprender com ela."
Miura-Ko acrescentou: "Sheryl é como plutônio radioativo quando se trata de recrutar uma pessoa-chave para o Facebook."
Outras mulheres no Vale do Silício também já serviram como exemplos. Muitas, como as executivas do Google,

Foto: Bloomberg via Getty Images/Marissa Mayer, do Google: campanhas sutis para promover as lideranças femininas em suas empresas

Marissa Mayer e Susan Wojcicki, têm feito sutilmente uma campanha para promover as mulheres dentro de suas empresas. Outras - como Meg Whitman, ex-presidente do eBay, que agora administra a Hewlett-Packard, Carly Fiorina, ex-presidente da HP, e Carol Bartz, ex-presidente do Yahoo - chegaram a ter muito sucesso no setor de tecnologia.
Mas nenhuma delas abraçou a causa de promover as mulheres da mesma maneira que Sandberg.

Mesmo assim, alguns dizem que sua mensagem de sonhar alto está um pouco fora da realidade. Todo mundo concorda que ela é muito inteligente, mas ela também tem tido sorte e teve ótimos mentores ao longo do caminho. Depois de Harvard e da Escola de Administração de Harvard, ela rapidamente saiu de um cargo como economista do Banco Mundial para se tornar a chefe do gabinete de Lawrence H. Summers, então secretário do Tesouro. Depois disso, ela foi trabalhar para o Google e, em 2008, para o Facebook.

Ela é casada com Dave Goldberg, um empresário bem sucedido e presidente executivo da SurveyMonkey, que permite que as pessoas criem as suas próprias pesquisas na internet. Ela não precisa se preocupar muito com dinheiro ou em cuidar das crianças. (Ela e seu marido têm dois filhos pequenos).

Para alguns, Sandberg parece sugerir que as mulheres deveriam apenas trabalhar mais, embora não reconheça que a maioria das pessoas não tiveram todas as oportunidades que ela teve.

"Sou uma grande fã de suas realizações e acho que ela é um grande exemplo em alguns aspectos, mas eu acho que ela é excessivamente crítica das mulheres porque está quase dando a entender que elas não têm a energia e a ousadia necessárias para atingir estes objetivos", disse Sylvia Ann Hewlett, presidente do Centro de Inovação de Talentos, uma organização de pesquisa sobre as políticas da vida profissional e diretora do Programa de Gênero e Política da Universidade de Columbia.

''Eu acho que ela conseguiu traçar para si mesma um caminho muito bom mas que talvez não consiga compreender que os verdadeiros desafios não estão no fato de alguém ter filhos ou não ter ambição,'' continou Hewlett. "As mulheres são, na verdade, muito firmes em relação a suas ambições, mas elas realmente acham que outras coisas as impedem de perseguir seus objetivos profissionais, como a falta de alguém que ajude a pagar as contas enquanto elas perseguem seus sonhos."

Não há como negar que Sandberg tem sido notavelmente bem-sucedida no Facebook. Quando ela entrou para a empresa, eles tinham cerca de 70 milhões de usuários e não possuíam um modelo de negócio. Com ela na posição de COO, os lucros chegaram a US$ 1 bilhão, saídos de US$ 3,7 bilhões em receita.

Sem dúvida, ela tem deixado uma marca enorme com seus frequentes discursos para as mulheres, que se tornaram praticamente um cartão de visitas para atrair mais mulheres para o setor de tecnologia e para o Facebook. Ela recrutou pessoalmente Lori Gole, a chefe de recursos humanos, e Katie Mitnic, a chefe de marketing de plataforma e de mobile. O papel de Sandberg em manter essas trabalhadoras tem sido ainda mais crucial.

Sukhinder Singh Cassidy, que trabalhou com ela no Google, disse que o perfil de Sandberg deu ao Facebook uma vantagem no recrutamento e na retenção de talentos.
"Quando você encontra mulheres que se perguntam : 'Será que eu consigo ficar? Consigo ter filhos e mesmo assim atingir meus objetivos profissionais?' A existência de exemplos como Sheryl é muito impactante", disse Singh Cassidy, que agora administra uma startup de compras online, a Joyus.

Sandberg se recusou a ser entrevistada para este artigo. Mas em uma conversa anterior com o "The New York Times", ela mencionou ter tido o seguinte dilema com uma candidata. "Nós lhe oferecemos a vaga e eu disse: 'Nós não temos que falar sobre isso, mas caso você esteja pensando em recusar este trabalho porque você está pensando em engravidar, você não deve se preocupar com isso", disse Sandberg. Não havia necessidade, Sandberg explicou, de escolher entre ter filhos e sua carreira – pois ambos eram possíveis. "Ela assumiu o cargo e me disse que não teria aceitado se eu não tivesse tido aquela conversa com ela. Ela engravidou algumas semanas depois."
Segundo investidores e analistas, sua atenção às mulheres também gerou benefícios para o negócio de outras maneiras.

Sandberg disse que as mulheres geram 62% da atividade no Facebook, em termos de atualizações de status, mensagens e comentários. As mulheres também geram 71% da atividade das páginas de marcas do site. As mulheres têm 8% de amigos a mais no Facebook do que os homens, em média, e passam mais tempo no site. Nos primeiros dias do Facebook, as mulheres foram as primeiras a publicar fotografias, a participar de grupos e publicar comentários.

"Não é nenhum segredo que as mulheres são um segmento de mercado extremamente poderoso, que consome pela internet e toma decisões no mundo digital diariamente", disse Aileen Lee, sócio da Kleiner Perkins Caufield & Byers, a firma de capital de risco que tem investido no Facebook e em várias startups administradas por mulheres.
Parte do papel de Sandberg tem sido o de cultivar relacionamentos com grandes anunciantes procurando por novas formas de interação com os clientes online - especialmente com clientes do sexo feminino. Ela foi fundamental em conseguir anunciantes como a Procter & Gamble. Depois de várias reuniões com o Facebook, a empresa escolheu a plataforma para uma nova campanha do desodorante Secret, destinado a mulheres jovens.

"A P&G quer estar onde o povo está, e mais e mais pessoas estão gastando seu tempo em sites de redes sociais", disse Alex Tosolini, vice-presidente da unidade da e-business global da empresa. "O objetivo de nossa campanha era de inspirar as mulheres de todas as idades a ser mais destemidas."

Esta é uma mensagem que parece muito semelhante com a de Sandberg. Com ela, a venda do desodorante Secret aumentou em 9% nos primeiros seis meses de campanha e a participação do desodorante no mercado subiu para 5% em relação ao ano anterior.

Se os homens do Vale do Silício fortalecem seus vínculos em salas de conferência de capital de risco ou em passeios de bicicleta no fim de semana, Sandberg também tem um grupo alternativo para a rede de mulheres do Vale do Silício. Durante sete anos, desde que era executiva do Google, ela tem realizado jantares mensais em sua casa para um grupo de dezenas de mulheres. Entre as convidadas estiveram a feminista e escritora Gloria Steinem; Steve Ballmer, CEO da Microsoft, e o prefeito Michael R. Bloomberg, de Nova York, de acordo com três pessoas que participaram dos jantares, mas falaram com a condição de que elas não fossem identificadas em respeito à privacidade de Sandberg. Sandberg recentemente convidou a senadora Claire McCaskill do Missouri para participar como palestrante.

"Eu esperava ver um monte de mulheres usando ternos e bolsas caras e fiquei positivamente surpresa quando vi que não era nada disso", disse McCaskill. "Algumas das mulheres presentes estavam no início de suas carreiras, seus filhos estavam correndo pelo lugar, era um evento bem discreto. Ficou claro que ela é o exemplo que estas mulheres jovens estão procurando, especialmente no setor de tecnologia."

Agora, além de todos os seus cargos e títulos, Sandberg deve ganhar mais um: o de bilionária. De acordo com documentos apresentados pelo Facebook na semana passada, Sandberg ganhou quase US$ 31 milhões ano passado, incluindo um salário base, bônus e US$ 30,5 milhões em prêmios e ações. Ela possui 1,9 milhão de ações da companhia e um adicional de 39 milhões em opções de ações restritas. Se o Facebook se tornar uma empresa pública a uma avaliação de US $ 100 bilhões - o que Wall Street vê como uma possibilidade, sua participação poderá valer até US$ 1,6 bilhão. Ela irá então fazer parte do clube mulheres mais ricas da América, ficando acima de Meg Whitman (US$ 1,3 bilhão), porém abaixo de Oprah (US$ 2,7 bilhões), segundo a revista Forbes.

Muitos se perguntam se Sandberg pode ir além do Vale do Silício e migrar para o mundo da política. Esse foi a discussão do momento em Davos.

McCaskill, por exemplo, disse que Sandberg teria grandes oportunidades na política. "Mas, por enquanto," a senadora acrescentou: "ela está sendo uma grande ajuda para as mulheres no setor privado."

Fonte: Portal iG

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Cinema na Educação: Moça com brinco de pérola

*João Luís de Almeida Machado

Moça com brinco de pérola

Quando a arte enche as telas do cinema

Poucas pessoas percebem a importância e a riqueza do trabalho desenvolvido na produção de um filme pelos técnicos e especialistas que assinam a música, os efeitos sonoros, os figurinos, os efeitos especiais, a iluminação, a edição (ou montagem), os cenários ou a fotografia. Elementos essenciais para que qualquer produção possa atingir sucesso, acabam motivando a busca dos melhores e mais talentosos profissionais do ramo por parte dos produtores e diretores.

Quando o filme brasileiro “Cidade de Deus” foi indicado ao Oscar em quatro categorias, duas delas foram essencialmente técnicas, ou sejam a fotografia e montagem (César Charlone e Daniel Resende, respectivamente). Os responsáveis por esse trabalho foram imediatamente reconhecidos como profissionais de ponta e contatados para outros trabalhos.

Há filmes que acabam se tornando cult movies especialmente em função desses detalhes técnicos, que de tão bem produzidos se tornam co-estrelas da produção. O clássico “Metrópolis”, do alemão Fritz Lang, produzido na primeira metade do século XX é um desses casos (ficou conhecido mundialmente pela montagem, pelo roteiro originalíssimo e também pela fotografia). “Os Duelistas”, dirigido por Ridley Scott ainda nos anos 1970 também é uma dessas realizações celebrizadas por aspectos técnicos (uma das mais belas fotografias já produzidas pelo cinema).

Um trabalho de ponta nessas áreas técnicas garante ao filme muita visibilidade e, ao mesmo tempo, reconhecimento por parte do público e da crítica. Esse é o caso do filme “Moça com brinco de pérola”, do diretor inglês Peter Webber, que se baseia na vida de um dos mestres da pintura renascentista, nascido na Holanda, Johannes Veermer.

Um dos mais importantes e impressionantes trabalhos de fotografia produzidos pelo cinema nas últimas três décadas, o filme se torna literalmente uma obra-prima nesse quesito por dar a produção ares de pintura renascentista. Há diversas situações em que as tomadas nos causam a sincera impressão de quadros que poderiam facilmente estar em exposição nas grandes galerias e museus de arte da Europa ou das Américas.

Além disso, o filme traz a tona questões importantes da história daquele período ao abordar a difícil relação entre os mecenas (financiadores do trabalho dos artistas, cientistas, filósofos e literatos daquela época) e os grandes e temperamentais gênios com os quais se envolviam, caso do próprio Veermer. Recorte de época produzido com máximo esmero pelo diretor Webber e pelos produtores Paterson e Tucker, “Moça com brinco de pérola” ainda nos brinda com interpretações destacadas de Colin Firth e Scarlett Johansson (que possui grande semelhança com a moça do quadro original pintado pelo artista holandês).

Apesar de todos esses destaques e da riqueza de detalhes da produção (também percebida nos figurinos e nas locações), o filme tem roteiro consistente que desperta o interesse e a atenção dos espectadores ao longo de toda a projeção, misturando romance, drama, história e um pouco de suspense. É uma produção digna de nota e se enquadra, certamente, entre os melhores filmes produzidos recentemente.

O Filme

Griet (Scarlett Johansson em atuação destacada) é uma jovem camponesa que vai trabalhar na casa do mestre holandês Johannes Veermer (Colin Firth). Filha de um aspirante as artes plásticas, Griet carrega entre os pertences que leva para sua nova residência um azulejo que fora pintado por seu pai e toda a timidez de uma jovem que se vê vivendo num novo contexto ao atingir uma beleza que desperta a atenção de alguns homens que vivem ao seu redor.

Os hábitos e crenças dessa Holanda, em pleno Renascimento Cultural, ainda não são tão liberais que lhe permitam aspirar à independência que as mulheres daquele país hoje em dia possuem. Em vista disso, ela mantém distância e sobriedade para não tornar ainda maiores os interesses de homens de poder e importância como o próprio Veermer e o mecenas que o sustenta.

Prefere aproximar-se de um jovem de origem humilde como ela que trabalha na banca de peixes que abastece a casa de seu patrão. Nesse ínterim, a despeito da peleja que se trava nos bastidores e nas entrelinhas da história em virtude de sua bela figura, Griet é transformada em musa para a próxima produção de Veermer.

Desse encontro entre artista e inspiração surge uma nova percepção de mundo, talhada na capacidade de perceber as luzes, as sombras e as cores de uma forma privilegiada que apenas os artistas possuem. Nem o ciúme e a paixão são capazes de destruir essa nova relação da jovem serviçal com o mundo que a cerca. Será?

Filme destacado por suas qualidades técnicas, possuidor de roteiro inteligente e de grande sensibilidade, “Moça com brinco de pérola” é um filme que merece a atenção e o reconhecimento por parte de todos aqueles que amam as artes em sua essência e que reconhecem o brilhantismo de uma produção fora dos padrões. Não percam!

Aos Professores

1- Qual é a situação da arte nos dias atuais? Se antigamente existiam os mecenas que financiavam o trabalho dos grandes mestres (como o holandês Veermer), de que forma se incentivam os grandes talentos da atualidade? As comparações entre o ontem e o hoje constituem um dos melhores elementos para estimular a discussão sobre a história. Que tal propor a construção de um painel que apresente a evolução da produção artística nesses dois períodos da história e um exame dos processos de financiamento das artes nas Idades Moderna e Contemporânea?

2- Visitas a museus e a exposições devem acontecer com regularidade e, sempre que acontecerem, devem ser precedidas de trabalho árduo no sentido de esclarecer dados sobre os artistas e também sobre suas obras. Entretanto é necessário que o olhar dos nossos estudantes seja estimulado a perceber, de forma independente, as sensações que são apresentadas a nossa capacidade de percepção pelo trabalho dos artistas plásticos. Não podemos e não devemos pré-estipular as leituras que são feitas pelos alunos e devemos, por outro lado, levá-los a examinar em minúcias as obras em exposição. Isso permite que se estabeleça um diálogo intenso entre a obra produzida pelos artistas e as pessoas que visitam as mostras, fomenta debates em aulas posteriores e exige maior concentração no exame das obras pelos estudantes.

3- A Holanda do período de Veermer fervilhou em virtude do êxito comercial e financeiro de suas instituições. Sabemos, por exemplo, da parceria que se estabeleceu entre os batavos (holandeses) e os portugueses para o desenvolvimento da produção do açúcar no Brasil. Assim como Veermer, muitos outros artistas e intelectuais da época só puderam apresentar seus trabalhos em virtude do sucesso dos empreendimentos mercantis e bancários de seus países. De que forma seria possível estabelecer as relações entre desenvolvimento econômico e produção cultural naquele contexto? Seria possível perceber esse fenômeno na atualidade? Que tal propor esse trabalho de pesquisa para seus estudantes?

4- Um trabalho interdisciplinar envolvendo as artes e todas as outras matérias é um dos sonhos de qualquer educador sintonizado com as possibilidades que o uso e estudo da cultura permitem a educação. Criar projetos que coloquem as crianças e adolescentes em contato com exposições, mostras, apresentações teatrais, orquestras, óperas, danças e cinema têm que ser uma das prerrogativas do trabalho de atualização e modernização das escolas. Isso implica, a princípio, num trabalho a ser realizado em sala de aula para aguçar os sentidos e colocar os estudantes em condições de se sensibilizar em relação à arte. Num segundo momento significaria criar uma agenda cultural que permitisse o fortuito encontro entre educandos e produção artística... Será que isso é apenas um sonho?

Ficha Técnica

Moça com brinco de pérola
(Girl with a pearl earring)
País/Ano de produção: Inglaterra/Luxemburgo, 2003
Duração/Gênero: 95 min., Drama
Direção de Peter Webber
Roteiro de Olívia Hetreed baseado em livro de Tracy Chevalier
Elenco: Colin Firth, Scarlett Johansson, Tom Wilkinson,
Judy Parfitt, Cillian Murphy, Essie Davis, Joanna Scanlan,
Alakina Mann, Chris McHallen, Rollo Weeks.

Links- http://www.girlwithapearlearringmovie.com (site oficial)
- http://www.adorocinema.com/filmes/moca-com-brinco-de-perola/moca-com-brinco-de-perola.asp
- http://www.cinemaemcena.com.br/FICHA_FILME.ASPX?ID_FILME=2844&aba=detalhe

* Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).