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segunda-feira, 26 de março de 2012

Barcelona "movida"

Acervo pessoal

Bela e movimentada, a orla da capital catalã é passeio obrigatório para quem não gosta de ficar parado


Foto:SergiLarripa/Wikimedia Commons

Os deques oferecem uma boa visão do Mar Mediterrâneo
Se há um lugar na Europa onde não se encontra dificuldade para correr ou caminhar é Barcelona. Primeira cidade do continente europeu a ter um plano estratégico voltado ao esporte, a capital catalã conta com locais bem equipados para exercitar as pernas e todo o corpo, como os parques de Montjuic e Collserolla.

Além deles, quem está na cidade a trabalho ou a passeio não pode deixar dar uma caminhada pela badalada orla local, com destaque para as praias Sant Sebastián e Barceloneta. Esses dois trechos e todo litoral da capital catalã são intensamente frequentados pelos turistas e moradores da cidade.

Além de admirar a bela vista do Mar Mediterrâneo, correr ou caminhar nas praias catalãs é vantajoso pela estrutura que elas oferecem. Os esportistas têm à disposição equipamentos de ginástica, bebedouros, vestiários, duchas, postos de informações e quiosques que vendem bebidas geladas.

Foto: Sergi Larripa/Wikimedia Commons

Amplos, os calçadões da orla de Barcelona são um convite a caminhada
Os calçadões à beira mar são amplos e convidativos. O único senão é que eles também são os favoritos de ciclistas e patinadores, o que exige muita atenção para não ser atropelado por algum desatento.

Praias vizinhas, Sant Sebastián e Barceloneta formam um bom percurso para quem quer caminhar por meia hora sem apertar muito o passo. Do começo da primeira até o final da segunda, você percorre cerca de 2km. Se decidir correr, gastará menos tempo, dependendo do fôlego e da empolgação. Enquanto faz esse trecho, você pode admirar grandes atrações do lugar, como as Torres de Sant Sebastián e Marenostrum, o Hotel Arts Barcelona e o Porto Olímpico.

Quem estiver com disposição, pode correr trechos mais longos. Por exemplo, partir de Sant Sebastián, passar pelas praias de Barceloneta, Nova Icária e terminar em Bogatell, totalizando 3km. O percurso pode chegar a 4 km se você incluir mais duas, Mar Bella e Nova Mar Bella. Para que costuma correr ou caminhar longas distâncias a sugestão é fazer um “bate-e-volta”, totalizando 8km. A boa forma e a saúde agradecem.
Seja qual for a rota escolhida, a melhor maneira ir até qualquer ponto da orla de Barcelona é de metrô, existem estações próximas de todas as praias.

Fonte: Portal iG

Amsterdã: uma cidade em duas rodas

Acervo pessoal

Ciclovias da cidade têm placas específicas para orientar o tráfego de bicicletas

Assim como as famosas tulipas e os canais, as bicicletas podem tranquilamente fazer parte de qualquer cartão-postal de Amsterdã. Elas estão em todo canto na cidade.
É um verdadeiro exército de “magrelas” – e isso não é uma força de expressão, não– a estimativa é que circulem mais de 700 mil delas pelas ruas da capital holandesa, representando espantosos 37% do tráfego total na cidade.

Os nativos usam as bicicletas não apenas para lazer e exercícios. É comum ver homens engravatados e mulheres empetecadas, muitas de salto alto, pedalando em direção ao trabalho. A paixão pelas bikes também não tem idade. Nos 400 km de ciclovias de Amsterdã, circulam adultos, velhos, jovens e crianças.

Com todo esse ambiente tão amigável às duas rodas, fica irresistível pedalar ao visitar à terra dos tamancos de madeira. O lugar mais indicado para fazer isso é mesmo nas ciclovias. Não é difícil encontrá-las nos principais bairros de Amsterdã, as faixas brancas que as representam são facilmente identificáveis no lado direito das ruas, assim como os desenhos de bicicleta pintados no chão.

Por cerca de 10 euros o dia, é muito fácil alugar uma fiet – apelido carinhoso que os holandeses dão as suas amadas bicicletas. O site I Amsterdam oferece uma lista dos locais que disponibilizam o serviço. Quem estiver na loja de locação pode aproveitar para comprar lá mesmo um guia que oferece mapas das ciclovias e das melhores rotas para pedalar.

Mas antes de sair pedalando, é preciso saber de uma coisa. Assim como todos nativos, os ladrões locais também adoram bicicletas. Não é brincadeira, o furto delas é infelizmente muito comum na cidade. Fique de olho e não a deixe a sua magrela dando sopa, é provável que você a perca se deixá-la sozinha sem uma boa corrente e um bom cadeado. Confira abaixo mais dicas de como circular com segurança em duas rodas pela bela capital da Holanda.
Fique esperto!

• Evite pedalar no centro da cidade, há uma quantidade enorme de carros circulando, deixando o ciclista muito apertado na sua faixa

• Se a rua tiver ciclovia, permaneça nela. É extremamente proibido circular entre os carros nesta situação

• Nem pense em pedalar nas calçadas, quando estiver nelas, desça da bike e vá andando

• Algumas ciclovias têm mão dupla, preste atenção às indicações pintadas no asfalto

• Em vários cruzamentos há sinais exclusivos para as bicicletas, fique atento a eles

• Não é recomendado parar na ciclovia, os ciclistas locais costumam andar em alta velocidade, você pode ser atingido

• Pedale defensivamente, prestando atenção nos colegas ciclistas
Boas pedaladas
Localização: Holanda/Amsterdã
Horário: livre
Transporte: transportar a bicicleta nos barcos é de graça. Já nos trens custa 6 euros

Fonte: Portal iG

domingo, 25 de março de 2012

Corra como um rei no parque mais famoso de Madri

Construído originalmente como recanto da monarquia espanhola, o Parque do Retiro é um convite à atividade física

Ao fundo o Monumento a Afonso XII/Acervo Pessoal


Foto: SXC/As aristocráticas alamedas do parque são perfeitas para uma gostosa caminhada ou corrida

O mais famoso de Madri, o Parque do Retiro exala a tradição europeia por suas belas alamedas arborizadas.

Construído originalmente como recanto da monarquia espanhola, a área verde de 118 hectares existe há mais de três séculos e hoje está aberta a quem quiser respirar um pouco de ar puro e mexer o corpo.

A mais longa de todas as rotas, que contorna a área do Retiro, tem 4,7 km. Você pode começar em qualquer uma das imponentes entradas.

Todo de ferro com detalhes em dourado, o Portão de Murilo é a indicação de ponto inicial. O percurso pode ser dobrado para quem tem fôlego para quase 10 km de corrida ou caminhada.

Para os que preferem uma trilha menor, existe a de 3 km, que explora as belezas do Retiro. Comece pela Fonte de Los Galápagos, siga pelo Passeio Salon Del Estanque e sua continuação, o Passeio de La Republica de Cuba. Neste trecho, aprecie o lindo Palácio de Cristal, à beira de um lago.

Seguindo em frente, você vai contornar a fonte de La Rosadela e entrar no Passeio Del Duque Fernán Núñes, que deve ser percorrido até o seu final.
Para terminar, vire à esquerda e volte ao ponto inicial. No caminho, não deixe de apreciar o Monumento ao rei Alfonso XII que impressiona pela suntuosidade.

Há muitas outras opções de rotas na área. Dê uma olhada no mapa disponível no site do lugar e monte uma que lhe agrada.

O Parque do Retiro também conta com postos de informações bastante úteis. Em um local bem estruturado e bonito como este, não falta estímulo para se exercitar.

Fique esperto!

• Nos fins semana, o parque fica cheio durante todo o dia. A melhor opção é correr nas primeiras horas da manhã, quando há menos público
• Nos dias da semana, no início da noite, há menos frequentadores no local. Procure as áreas mais iluminadas para evitar riscos
• Como em toda grande cidade, os batedores de carteiras e trombadinhas também frequentam parques em busca de vítimas. Evite ostentar objetos de valor e fique atento

Bons passos:

Localização: Madrid/Distrito do Retiro/Bairro Los Jeronimos
Funcionamento: 6h às 24h (verão) /6h às 22h (inverno)
Transporte: metrô (estações Atochae Retiro)/Ônibus (linhas 1, 2, 15, 19, 28, 146)
Sanitários: possui
Estacionamento: possui, na área externa do parque
Site Oficial: http://www.parquedelretiro.es

Fonte: Portal iG

quinta-feira, 22 de março de 2012

Com novas regras, CNJ impulsiona reconhecimento de paternidade

Tribunais conseguiram promover ao menos 10 mil reconhecimentos espontâneos em pouco mais de um ano, segundo Corregedoria


Foto: Arquivo pessoal/Bárbara, o marido e o filho

Bárbara Elizabete de Oliveira esperou 23 anos para ganhar um novo nome. Há um mês, ela tem mais um sobrenome, Salmoria. O nome da família do genitor está não só na assinatura de Bárbara, como sua certidão não está mais vazia no lugar do pai. Só agora, Edson Salmoria, seu pai, a reconheceu como filha. Procurado pela Justiça – e um teste de DNA depois – ele foi obrigado a registrar a filha a quem nunca deu amor ou atenção.

A história de Bárbara é a mesma do pequeno Pablo, de apenas um ano e nove meses. Até dois meses atrás, apenas o nome da mãe dele estava na certidão de nascimento. Em seu sobrenome, não havia referência ao pai, que se negou a registrá-lo. Para que o futuro do filho não fosse carregado da mesma angústia e mágoa permanentes na vida de Bárbara, Edmara Silva Santos, 25 anos, também pediu ajuda à Justiça.

Bárbara e Pablo estão muito distantes fisicamente. Ela mora em Lages, Santa Catarina. Ele, em Salvador, Bahia. Mas a história deles se repete por todo o País.

Dados do Censo Escolar 2010 mostram que, naquele ano, 5,5 milhões de alunos não declararam o nome dos pais nas escolas onde estudavam. O número é superestimado – já que muitas crianças têm o nome do pai na certidão, ele só não foi informado – e deve incluir adultos que também estudam.

Apesar da imprecisão, esse é o dado mais “confiável”, de acordo com a Corregedoria Nacional de Justiça. Por causa desses dados, o órgão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) definiu novas regras para facilitar o reconhecimento de paternidade no Brasil. O número alarmante de crianças sem o nome do pai no registro de nascimento levou a Corregedoria a desenhar um projeto para estimular tribunais de Justiça de todo o País a transformar essa realidade.

Regras mais simples

Batizado de Pai Presente, o projeto se inspirou em iniciativas individuais de tribunais. Ele facilita o cumprimento da Lei 8.560, que determinava o encaminhamento dos nomes das crianças registradas apenas com o nome da mãe aos juízes mais próximos. O processo deveria ser feito pelos registradores civis, que executavam com dificuldade a determinação de 1992. A edição de dois provimentos posteriores – o 12 e o 16 – facilitaram o processo.

O provimento nº 12 foi editado em 2010, pouco antes de o projeto ser criado. Naquela ocasião, os nomes de todos os estudantes com certidão de nascimento incompleta foram encaminhados aos tribunais de cada Estado. A proposta era que as mães deles fossem encontradas para indicar supostos pais e os juízes darem início a processos de investigação de paternidade. Agora, o processo ficou ainda mais simplificado.

Mães ou filhos maiores de idade que quiserem alterar a certidão de seus filhos ou a própria têm de procurar um cartório de registro civil – qualquer um dos 7.601 espalhados pelo País – e indicar o nome do suposto pai. Os registradores se encarregam de encaminhar nomes e contatos aos fóruns ou juízes responsáveis, que localizam e intimam os supostos pais. Se preciso, o caso será encaminhado ao Ministério Público ou à Defensoria Pública. As novas regras também permitem que os pais solicitem o reconhecimento da paternidade do filho.

As conquistas

Apesar de muitos projetos serem mais antigos do que os dois últimos provimentos da Corregedoria Nacional do CNJ, os dados sobre os reconhecimentos de paternidade já realizados pelos tribunais brasileiros são parciais. Ainda assim, são comemorados pela Corregedoria. O último levantamento feito pelo órgão mostra que 9.851 reconhecimentos espontâneos já foram realizados em 15 Estados.

Além disso, foram realizadas 10.647 audiências, feitos 1.587 exames de DNA e 7.896 investigações de paternidade propostas. . “Não temos esse controle exato, mas certamente o número é maior do que sabemos”, afirma Ricardo Chimenti, juiz auxiliar da Corregedoria Nacional. Ele conta que muitos Estados não atualizam os números e, em outros, o projeto ainda não foi colocado em prática.

“Com o provimento nº 16, acreditamos que o projeto será acelerado. Nosso próximo passo é interceder junto ao Poder Executivo para melhorar o acesso dessas pessoas a exames de DNA. Precisaríamos realizar grandes mutirões zerar a conta. Tem gente que espera por um exame há dois anos, porque não pode pagar por ele”, ressalta Chimenti. “Estamos chegando ao limite do que o Poder Judiciário pode fazer”, diz.
Entre os Estados que mantém o bando de dados do CNJ atualizado, São Paulo é o que mais conseguiu reconhecimentos: 2.812. Mas também é o que mais possuía alunos sem o nome do pai na certidão de nascimento segundo o Censo Escolar 2010, 731.637. No Paraná, em que 205.790 estudantes estavam com registro de nascimento incompleto, foram realizados 2.652 reconhecimentos espontâneos de paternidade.

O esforço feito pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) tem gerado resultados. Os dados recebidos pela Corregedoria do CNJ mostram que 1.050 reconhecimentos espontâneos do total de 9.851 do País ocorreram no Estado. Em 2010, 320.049 alunos não possuíam o nome do pai na certidão de acordo com o Censo Escolar.

Um dos Estados com mais crianças não reconhecidas pelos pais e que menos avançou no projeto é o Maranhão. Havia 450.441 alunos sem pai na certidão. Apesar dos 85 processos abertos e 324 notificações feitas por lá até agora, nenhum pai reconheceu espontaneamente seus filhos até agora.

Diminuindo traumas

Para Bárbara, o nome do pai na certidão, que ainda não ficou pronta, significa tranquilidade para a própria consciência. Durante muito tempo, ela procurou o pai, mandou mensagens em dias de aniversário, mas só ganhou indiferença. “Eu era muito rejeitada por ele e pela família dele. Sempre quis ter um pai, não era a assinatura. Eu não entendia porque ele duvidava que eu fosse filha dele, mas ajudou financeiramente minha mãe a vida toda”, conta.

Mãe de um bebê de sete meses, Bárbara percebeu ainda mais a importância de acabar com as dúvidas. Procurou o projeto Pai Responsável de Lages (SC) e pediu o reconhecimento. Segundo ela, foi tudo muito rápido. Na primeira audiência, Edson solicitou exame de DNA, que deu positivo.

“Ele foi bem frio, disse que eu o procurasse se precisasse de ajuda financeira, mas que não poderia ter contato comigo porque a mulher atual não aceitava”, conta. Ele nunca mais procurou Bárbara. “Eu fiquei mal, mas não espero mais nada”, diz.

No caso da baiana Edmara, o pai de seu filho também duvidava da paternidade de Pablo. “Esperei meu filho nascer para ver o que ele diria. Ele pediu o exame e achou que eu não correria atrás, mas fui ao tribunal. Foi tudo rápido e ele registrou na hora depois do resultado e fizemos um acordo de pensão”, conta. Ela espera que, agora, o filho tenha também carinho e atenção do pai.

A juíza Maria Helena Lordelo, responsável pelo projeto no TJBA, conta que os resultados são animadores. Desde agosto de 2011, quando o projeto começou, ocorreram cinco dias de audiências em Salvador e376 reconhecimentos foram feitos. Nas contas do CNJ, a Bahia realizou 133 reconhecimentos espontâneos e emitiu 16.436 notificações a pais e mães. Em abril, outras 60 pessoas vão participar de mais audiências.

“O que mais nos surpreendeu foi o número de adultos e jovens que nos procuraram. Eles vivem bastante incomodados por não terem o nome do pai no registro. Queremos agora o apoio de psicólogos para nos ajudar nesses processos”, conta.

Silvio Orsatto, juiz da Vara de Registros Públicos da Comarca de Lages, um dos precursores da iniciativa em Santa Catarina, conta que, no município, houve um trabalho interdisciplinar entre a área jurídica, as escolas e os gestores da saúde para criar o projeto. “Queríamos entender melhor as dimensões desse problema. À época, 17% das crianças da serra catarinense, 400 crianças por ano, ficavam sem o nome do pai. Criamos estratégias de prevenção”, diz.

Hoje, Orssato conta que a proposta do município é prevenir, não deixar nenhuma criança sem registro de paternidade. “Precisamos trabalhar a conscientização do cidadão”, afirma. Em cinco anos, o município realizou 7 mil exames de DNA gratuitos e montou um órgão, o Instituto Paternidade Responsável, para atuar com o tema. “Conseguimos implantar o atendimento nas maternidades”, conta.

Paulo Risso, presidente da Associação Nacional dos Registradores Civis (Arpen-Brasil), acredita que as mães precisam se conscientizar que, dar ao filho o nome do pai, é um direito dele.

Fonte: Portal iG

quarta-feira, 21 de março de 2012

A mulher segundo Clarice Lispector

Mestra dos detalhes, a autora é uma das mais replicadas na rede. Entenda por que as frases de Clarice se tornaram fenômeno pop

Foto: Reprodução

Clarice Lispector (1920-1977). Principais obras: A Hora da Estrela (1977) e A Paixão segundo G.H. (1964). Modernismo

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

Essa única frase resume a essência do conto “A Fuga”, de Clarice Lispector, no qual uma mulher sai de casa e, ao passar algumas horas sozinha numa praça, decide se separar do marido. Essa capacidade de fazer em poucas palavras sínteses de situações humanas complexas se tornou um prato cheio para internautas.

Os sites de mensagens inspiradoras e as redes sociais espalham e compartilham dezenas de frases atribuídas à escritora, geralmente acompanhadas de fotos e músicas românticas. Nem sempre, no entanto, as frases foram de fato retiradas dos livros, das entrevistas ou das colunas femininas que Clarice escrevia para jornais, nos quais assinava com pseudônimos, como Tereza Quadros e Helen Palmer.

Apesar de nem tudo que a gente recebe nas nossas caixas de email ou nos feeds de redes sociais ter sido de fato assinado por ela, Clarice Lispector é um sucesso nas redes. Sua fanpage no Facebook, por exemplo, tem mais de 160 mil seguidores! (Só para dar uma ideia, a do cantor Roberto Carlos tem cerca de 16 mil).

“As pessoas gostam de máximas e Clarice tinha mesmo essas frases sentenciosas. ‘A descoberta do mundo’ é cheio delas”, diz Yudith Rosembaum, professora de literatura brasileira na Universidade de São Paulo e autora, entre outros, do perfil “Metamorfoses do Mal – uma leitura de Clarice Lispector” (Edusp).
“Os textos dela tocam em aspectos importantes da condição humana, mergulham naquilo que temos de melhor e de pior no campo das relações pessoais, afetivas, sentimentais e dos valores éticos”, ressalta Nádia Battella Gotlib, professora da USP e autora de "Clarice Fotobiografia" (Imprensa Oficial).

“E ‘eu te amo’ era uma farpa, que não se podia tirar com uma pinça.’

“Ela sabe como chacoalhar com o ‘de-dentro’ da gente, abrindo novas perspectivas de sensações e de visões daquilo que nos rodeia. Clarice promove uma nova descoberta do mundo”, acredita Nádia.

De quebra, a autora ucraniana é ela própria uma imagem que remete ao mistério do feminino. “Se essa imagem de mulher bonita, charmosa, atraente, funciona como um pólo de atração para o que ela escreveu, então não há como rejeitar esses atributos físicos”, afirma Nádia Gotlib. “São uma isca para os seus textos. Mas a beleza da sua arte está acima desses traços de mulher bonita”, ressalva.

Clarice dominava o universo feminino e partia dele para falar da sua experiência de mundo. “Ela priorizou protagonistas mulheres, mas na obra da Clarice, essas mulheres ganham uma dimensão universal que toca nas entranhas do humano”, afirma Yudith.

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Muitas das personagens de Clarice estão ligadas a vida doméstica, a ambientes internos e familiares. “É uma escritora do feminino", afirma Yudith. “Mas esse feminino pode ser vivido por um homem. A importância da obra da Clarice não está só ligada ao fato dela ter falado de e para mulheres. No século 21, seus contos e romances continuam dissecando o desamparo do ser humano”, diz a professora. “É um olhar histórico da mulher aprisionada em casa, mas que tem caráter universal, mesmo fora dessas condições sócio-econômicas.”

“Confesso que até alguns anos atrás pensava que Clarice era lida mais por mulheres. Hoje acho que não. Afinal, o mergulho nas profundezas da alma humana pode feito por qualquer um”, afirma Nádia.

“O destino de uma mulher é ser mulher.”

E vale ler Clarice a conta-gotas, em frases soltas, para entender o que é a vida? “Muitos são iniciados em Clarice lendo pequenos trechos pela internet. E destes textos passam, depois, para outros textos publicados em livros”, diz Nádia. “Continua sendo o melhor modo de ler a autora.”

Mas fica o alerta: “Muitos dos textos que circulam na internet não são de Clarice.”

Inspire-se nas frase autênticas de Clarice Lispector sobre a vida, sobre ser mulher e sobre o amor

“Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante” – do conto "Felicidade Clandestina"

“O destino de uma mulher é ser mulher”, em “A hora da Estrela”

“Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as ciosas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar”, em Um Sopro de Vida

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado” , do conto “Amor”

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”, em Perto do Coração Selvagem

“A vida é curta demais para eu ler todo o grosso dicionário a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora”

“A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente”

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca” – em "A Descoberta do Mundo"

“Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim”, frase de Clarice em “Esboço para um futuro retrato”, de Olga Borelli

“Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão” - "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"

“E ‘eu te amo’ era uma farpa, que não se podia tirar com uma pinça” – "A Paixão segundo G.H".

“O maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma” - "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres"

Fonte: Portal iG

segunda-feira, 19 de março de 2012

O começo de uma nova era na relação homem e mulher

*Regina Navarro Lins

Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como ter filhos se quiser ou quando quiser

Ao ouvir no meu consultório, num mesmo dia, dois relatos pouco habituais, me dei conta de que há algo novo acontecendo na relação homem/mulher. No primeiro caso, um engenheiro de 58 anos, separado de três casamentos, conta inconformado a sua decepção. Surpreso, assistiu a sua proposta de casamento ser recusada pela mulher com quem namora há um ano, uma advogada de 51 anos, também separada, com filhos adultos. Ela alega gostar muito de fazer sexo com ele, mas não acha justo se reprimir quando sentir desejo por outro homem. Ele insiste em reconstituir uma família e ela em ficar solteira.

O outro caso é o de uma pedagoga de 26 anos. Há quase três anos mora com o namorado, um professor universitário de 30 anos, mas faz questão de manter o apartamento, que divide com uma amiga, onde morava antes. A relação está em crise, o namorado deseja ter um filho ainda este ano e ela se recusa. Alega não querer ter filho agora, e nem ter certeza de querê-lo algum dia. O namorado entende essa atitude como falta de amor e diz que com um filho a relação dos dois ficaria mais estável e ele mais tranquilo. Mas é justamente essa estabilidade que a apavora.

O que está acontecendo? O que sempre presenciamos na vida, nos filmes e nas novelas são as mulheres desejando se casar, ter uma relação estável e segura. Além disso, só sentiriam desejo sexual pelo homem que amam, seja namorado ou marido. Sempre se acreditou que as diferenças entre o homem e a mulher incluíam a monogamia natural dela, para quem amor e sexo seriam inseparáveis. Seria da natureza do homem a infidelidade e também o hábito de tentar se esquivar de um compromisso.

Talvez seja um equívoco imaginar que esses novos anseios e comportamentos delineados nos exemplos acima façam parte de um simples processo natural e evolução e modificação dos costumes. O que vemos hoje é diferente. Vivemos nas primeiras décadas do século 21 um momento de ruptura, onde aspectos básicos das relações humanas estão sendo reformulados. Esse processo de mutação da história da humanidade não é facilmente perceptível e certamente só se tornará evidente quando concluído.

O novo assusta, nos faz sentir desprotegidos, por isso nos agarramos ao já conhecido. Estamos acostumados a usar modelos do passado no presente. Entretanto, isso se torna cada vez menos possível. O ser humano começa a se libertar das sujeições que o limitam há cinco mil anos, desde o surgimento o patriarcado – sistema de dominação do homem –, cuja história se confunde com a própria história da nossa civilização.

Temos informação de outra história anterior, muito mais longa, mas a ignoramos. Não é a nossa história. A nossa história se define e foi sustentada por dois aspectos fundamentais: o controle da fecundidade da mulher e a divisão sexual de tarefas. Trata-se de uma estrutura social nascida do poder do pai, com um rígido controle da sexualidade feminina. A ideologia patriarcal colocou em oposição homens e mulheres. Ao contrário do que se pensa, essa divisão permitiu a dominação e, dessa forma, a submissão de ambos os sexos, não só das mulheres. A elas coube o status de inferiores e aos homens de superiores.

As mulheres, durante alguns milênios, foram cúmplices na perpetuação do sistema patriarcal que as oprime, acreditando nessa inferioridade e transmitindo os mesmos valores, através das gerações, aos filhos de ambos os sexos. Os homens pagam um alto preço para manter a adequação social imposta: não podem falhar. Homens e mulheres, por milhares de anos, abriram mão de sua autonomia e liberdade, visto que esse sistema e a liberdade pessoal são antagônicos.

Há cerca de 50 anos o patriarcado começou a perder suas bases. O avanço tecnológico elimina a divisão de tarefas. O advento dos anticoncepcionais eficazes e acessíveis desferiu o golpe definitivo nesse sistema, que tem no controle da fecundidade da mulher sua principal razão de ser e, por estar calcado na natureza biológica, sempre foi considerado universal e eterno.

Hoje, a mulher pode não só dividir o poder econômico com o homem, como ter filhos se quiser ou quando quiser. Essa transformação radical se distingue do processo de evolução observado até agora. A partir daqui, não temos como avaliar as consequências. Estamos vivendo um processo de mutação, após milênios da única ideologia de que temos registro. Talvez tenhamos que aguardar várias gerações para vê-lo concluído. Mas os sinais já começam a se esboçar.

O enfraquecimento da ideologia patriarcal traz nova reflexão sobre o relacionamento entre homens e mulheres, o amor, o casamento e a sexualidade. Pressentimos a destruição de valores estabelecidos como inquestionáveis e nossas convicções íntimas mais arraigadas são abaladas. Os modelos do passado não nos dão mais respostas e nos deparamos com uma realidade ameaçadora, por não encontrarmos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.

Entretanto, essa pode ser a grande saída para o ser humano. Não tendo mais que se adaptar a modelos impostos de fora, as singularidades de cada um encontram novo campo de expressão. No momento em que se rompe com a moral que, durante tanto tempo e através de seus códigos, julgou e subjugou o prazer das pessoas, abre-se um espaço onde novas formas de viver, assim como novas sensações, podem ser experimentadas. Sem nos darmos conta, estamos assistindo ao fim do patriarcado e ao nascimento de uma nova era.

*Psicanalista e escritora, autora do livro “A Cama na Varanda”, entre outros.

Fonte: Portal iG

sábado, 17 de março de 2012

Sistema Educacional

*Otaviano Helene

O Brasil chegou a ser, há não muito tempo atrás, o país com a pior distribuição de renda em todo o mundo. Embora essa situação tenha melhorado nos últimos anos, continuamos em uma posição muito ruim – o nono pior índice de Gini (1) entre 107 países relacionados pelo Banco Mundial – e estamos evoluindo muito lentamente. Em apenas cinco países os 10% mais pobres têm uma participação na renda nacional menor do que os 10% mais pobres no Brasil e em apenas dois países os 10% mais ricos abocanham uma fração da renda nacional maior do que no Brasil.

A renda não se concentra por um processo natural, como se nos quintais de alguns nascessem, por natureza, frondosas árvores de dinheiro e nos quintais de outros, raquíticos arbustos de moedinhas. A renda se concentra como conseqüência de políticas explícitas que incluem o próprio sistema econômico, a ausência ou não de reformas agrária e urbana democráticas, a repressão dos ou o diálogo com os movimentos sociais organizados, as alíquotas de impostos diretos e o combate ou não à sonegação, a existência ou não de impostos sobre o patrimônio, entre várias outras.
Há dois processos relacionados à educação que contribuem fortemente para a perenização da concentração de renda: a renda das pessoas depende fortemente da educação formal que receberam e a educação das crianças e jovens depende, também fortemente, de suas rendas familiares. A combinação desses dois fatores faz com que nossa política educacional seja um dos principais fatores de concentração de renda e de reprodução das desigualdades.

Um dos principais fatores responsáveis pela exclusão escolar é a renda. Por exemplo, a participação dos estudantes provenientes dos segmentos mais pobres da população cai significativamente ao longo das séries escolares e praticamente a totalidade das cerca de 30% das crianças que abandonam a escola antes do final do ensino fundamental tem origem nos segmentos mais desfavorecidos da população. Como a enorme maioria dessas crianças que deixam a escola prematuramente não freqüentou as classes de educação infantil, a educação formal oferecida a elas restringe-se aos poucos anos de escolaridade no ensino fundamental, em geral em escolas precárias, com uma permanência diária abaixo das quatro horas e com muitas “aulas vagas”. Resultado: os investimentos educacionais feitos em favor dessa terça parte das crianças, cujos valores anuais são próximos ao piso do Fundeb (2), não excederão, ao longo de toda a vida, alguns poucos milhares de reais.

No outro extremo, entre os mais ricos, a educação começa nos primeiros anos de vida e dura pelo menos duas décadas, com valores mensais de investimento que superam os mil reais, ou muito mais do que isso se forem incluídos investimentos com educação extra-escolar (cursos de línguas, atividades esportivas, aulas particulares etc.). Ao longo de toda a vida esses investimentos podem superar centenas de milhares de reais.

Portanto, as desigualdades na educação formal são enormes. E esses contingentes com enormes diferenças educacionais, ao deixarem a escola, conviverão em uma mesma sociedade. Ninguém pode ter dúvida do que acontecerá.
Em resumo, nossas terríveis desigualdades econômicas e sociais entram nas escolas pela porta da frente, com a conivência, apoio e subvenção explícita por parte das autoridades municipais, estaduais e federais, fazendo com que nosso sistema escolar trate de forma extremamente diferente os pobres e os ricos. E, evidentemente, com o apoio total das elites econômicas, para as quais as desigualdades não devem ser enfrentadas e superadas, mas, sim, os desiguais devem ser combatidos quando ameaçam incomodar.

O círculo vicioso renda educação renda se fecha uma vez que a renda de uma pessoa depende fortemente de sua educação formal, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, coisa que salta aos olhos (3). Cada ano adicional de escolaridade de um trabalhador implica em um aumento de renda da ordem de 15%, em média. Além dessa dependência da renda com relação ao número de anos de estudo, há também uma dependência em face da qualidade da educação recebida e, novamente, esta também depende fortemente da renda familiar dos estudantes.

Portanto, nosso sistema educacional é um importante instrumento a perpetuar a desigualdade, garantindo que ainda permaneceremos por longo tempo entre os países mais desiguais do mundo.

Outro aspecto perverso da desigualdade do nosso sistema educacional é o “desperdício” de pessoas. Como a desigualdade exclui das escolas enormes contingentes populacionais e grande parte dos não excluídos apresenta graves deficiências, nossas possibilidades de desenvolvimento social, cultural e do sistema de produção de bens e serviços são gravemente comprometidas, uma vez que não podemos contar com a contribuição produtiva da maioria dos nossos jovens, por mais dedicados, brilhantes e interessados que pudessem vir a ser: eles já foram descartados.

Para construirmos um país realmente republicano, precisaríamos romper com essa situação e criar um sistema educacional onde todos, independentemente da origem social e econômica, sejam tratados de forma igualitária. Escolas com infra-estruturas adequadas, professores e educadores que sejam remunerados adequadamente e instrumentos de gratuidade ativa (4) que compensem os custos induzidos pela freqüência à escola são fundamentais.

E não há nenhuma limitação real e objetiva que nos impeça de construir uma escola igualitária e democrática: se excluímos crianças e jovens prematuramente das escolas e as condenamos a uma vida adulta com más remunerações, é uma opção política ditada pelas elites, que não abrirão mão, por bem, de nenhum de seus privilégios, por mais que eles possam ser danosos para a sociedade.

Notas:
(1) O índice de Gini é um dos indicadores mais amplamente adotados para quantificar a distribuição de renda.

(2) O Fundeb, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, corresponde a um valor mínimo de investimento educacional da ordem de R$ 200 reais por mês e por estudante (valores de 2012). Estados cujos investimentos estão abaixo desse valor recebem uma complementação da União.

(3) Há exceções, obviamente, e algumas pessoas com pouca escolarização têm sucesso profissional e mesmo altas rendas. Entretanto, a regra seguida de forma majoritária é que a renda aumenta com o grau de escolarização. Por causa das poucas exceções, muitos, desatentamente, pensam que a regra inexiste ou é muito frágil; outros, às vezes por má fé, reproduzem e dão força a esse engano.

(4) Devemos lembrar que a renda per capita familiar de quase metade das crianças e adolescentes entre 0 e 17 anos, segundo dados de vários PNADs, é inferior a meio salário mínimo. Se considerarmos que grande parte da renda familiar é gasta com moradia, alimentação, energia elétrica e outras despesas inescapáveis, o que resta para as outras despesas é extremamente baixo. Assim, uma simples passagem de ônibus adicional por dia, um pequeno lanche ou qualquer outra despesa associada à freqüência à escola podem estar totalmente fora do alcance familiar. Nos segmentos mais favorecidos, muitas dessas despesas podem passar despercebidas, mas, para os segmentos mais

* Otaviano Helene, professor no Instituto de Física da USP, foi presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
** Publicado originalmente no site Correio da Cidadania.
(Correio da Cidadania)

Fonte: Envolverde