"Quando começares a tua viagem para Ítaca, reza para que o caminho seja longo, cheio de aventura e de conhecimento...enquanto mantiveres o teu espírito elevado, enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo."
...Konstantinos Kaváfis,trad.Jorge de Sena in Ítaca
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Dados da Associação dos Registradores
de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo mostra que o número de homens que
adotaram sobrenome das esposas saltou de 9 mil em 2002 para mais de 43 mil em
2013. Já as mulheres, no caminho inverso, estão abrindo mão do sobrenome do
parceiro
Brunno Kono|
/ iG São Paulo
Levantamento mostra
que mais homens adotam o sobrenome da mulher e elas seguem o caminho inverso
Quando Marcel Tavares Batista decidiu
abrir mão do sobrenome do pai pelo Duz, da família de Vanessa, sua esposa, os
protestos foram grandes dentro de casa. “Comentei com minha mãe, ela ficou
brava, seca, nem queria falar comigo. A gente conversava, ela voltava no
assunto, alfinetava, dizia que eu ia desistir do nome do meu pai, da minha
família”, diz o estudante de Farmácia de 28 anos.
Ele foi em frente e quando se
casou, em setembro passado, passou a se chamar Marcel Tavares Duz, enquanto
Vanessa, de 22 anos, agora é Vanessa Regina Tavares Duz. A mãe dele não gostou,
mas os sogros aprovaram.
Os dias do típico machão provedor estão contados ou já ficaram para trás. Para o psicólogo Antônio Carlos de Araújo , o homem que está tomando ou vai tomar em breve seu lugar ainda não se encontrou, está perdido: “Ele está em uma sinuca de bico”. Aparentemente, nem todos
Brunno Kono| iG São Paulo
“O que está perdido não sabe como agradar, enquanto o das antigas, aquele que permanece na década de 40, acomodado no seu papel, perde a mulher porque nenhuma precisa de um homem para viver financeiramente. Esse é arredio à terapia, não acredita nela, e quando vem, vem no desespero, quando a mulher já pediu o divórcio. Inevitavelmente, este tipo de homem está em extinção.”
É com palavras duras que Antônio Carlos Alves de Araújo, psicólogo e terapeuta de casais há 25 anos, define o homem que pode nem aparentar ser o típico machão de sempre, mas que enxerga homens e mulheres com papéis estabelecidos na sociedade, principalmente quando o assunto é relacionamento: ele trabalha, ela cuida dos assuntos domésticos.
Já os que não se encaixam neste perfil se encontram em uma “sinuca de bico”, defende Araújo. “Ele não sabe o que fazer, tem medos e receios, não foi criado e educado para isso, e é isso que a gente tem que mudar”, diz. Acostumado a também tratar jovens, o psicólogo associa o surgimento de uma mulher independente e decidida com casos de impotência sexual psicológica masculina: “No ano passado foram 550 casos de disfunção erétil entre homens de até 25 anos. Eles têm medo de mulher. Esse é o novo homem, um ser absolutamente fragilizado”. O psicólogo explica que o alto número de pacientes do sexo masculino se deve à vergonha que eles têm de se consultar com profissionais mulheres.
Antônio Carlos acredita que os papéis de homens e mulheres acabaram “distorcidos”. Ailton Amélio, psicólogo e professor do Instituto de Psicologia da USP, compartilha – e comemora – a opinião. “O novo homem abandonou a posição do perfil anterior, do provedor, cabeça do casal, sem sentimentos, racional. Saímos de uma posição definida. Ufa, ainda bem que a abandonamos. O sexo feminino também era definido naqueles papéis mais tradicionais, de cuidar da casa, dos filhos, mas houve um movimento. Um movimento justo, por sinal.”
Amélio ressalta que o espaço que as mulheres ganharam ainda não é suficiente, “basta ver a diferença de salários, presença em cargos políticos ou na direção de companhias” – levantamentos recentes feitos com empresas brasileiras apontam que eles têm 20 vezes mais chances de virar CEOs e que apenas 23% dos postos corporativos de liderança são ocupados por elas.
No entanto, ele diz que as conquistas femininas foram fortes o suficiente para os homens não se sentirem mais confortáveis defendendo o perfil “machão”. Sobre o sexo masculino estar perdido, ele concorda com Araújo. “Quando você não sabe os parâmetros, o que fala, o que não fala, é uma situação incômoda. Não tem um lugar de conforto, onde você se sinta seguro. Porque por qualquer coisa você poderá ser acusado de machista, e, por outro lado, se você ficar quieto, pode ser chamado de frouxo.”
SAIR DA ZONA DE CONFORTO NÃO É RUIM
José Borbolla Neto já viveu os dois lados da moeda. O gerente de marketing de 31 anos “desconfia” que um dos fatos que causou o término de um dos seus relacionamentos anteriores foi o perfil da companheira, “mais tradicional, de querer ter filhos”. “Eu tinha pretensões profissionais, acadêmicas, esse lado de querer realizar coisas”, explica.
Ele namora há cerca de um ano uma publicitária com quem compartilha essas ambições. “Estar ao lado de alguém que tem o perfil de querer atingir determinados níveis, profissionais ou acadêmicos, é muito bom. Você tem uma parceira”, diz. Borbolla confessa ser fã da “mulher moderna”, e a defende. “Elas não buscam o cara que vai puxar a carroça, mas o cara que vai ajudar a puxar. Ela conquistou um espaço e quer usá-lo da maneira como convir. Tem que fazer isso mesmo.”
Na opinião do gerente, tirar os homens “que têm um pé na modernidade e outro no machismo” da zona de conforto não é ruim “porque para conquistar essa mulher, o cara vai ter que ser bom, ele vai ter que melhorar”. E será que a “nova mulher” acaba com as atitudes associadas ao “cavalheirismo”, como abrir a porta e pagar a conta? “Existe um componente de espontaneidade na execução desse tipo de coisa que é importante, não pode ser protocolar. Se for natural, acho que sobrevive normalmente. Nada te impede de aparecer com uma flor de vez em quando. É questão de timing”, afirma Borbolla.
“SOU DONO DE CASA E ME ORGULHO DISSO”
Em conjunto com a esposa, Eduardo Moraes, de 39 anos, decidiu que ela iria deixar o trabalho para ficar com João, filho recém-nascido do casal, “até o dinheiro acabar”. Essa estratégia durou por dois anos, e há seis meses é ele quem fica com o garoto pela manhã e depois o leva à escola. Fotógrafo, ele diz que a agenda flexível permitiu isso, mas que se trabalhasse em horário comercial eles teriam que pagar uma babá, algo que eles não querem: “A gente quer criar”.
Além de cuidar do pequeno João, Moraes também se encarrega de fazer o mercado, o jantar e às vezes dar um jeito na casa. “Eu sou uma dona de casa e me orgulho disso”, brada. “Gostaria que minha mulher fosse uma executiva que ganhasse R$ 30 mil por mês, aí eu ficava em casa, tirava fotos por hobby, fazia a comida, praticava esportes”, brinca.
Como os pais trabalhavam muito, o fotógrafo, ao lado de uma empregada, teve que cuidar do irmão mais novo, experiência que ele acredita ter sido muito útil na hora de exercer o papel de pai.
Foi em um dos momentos de “pai e filho” que ele se indignou certa vez. “Tem uma cozinha na brinquedoteca do clube, o João estava brincando de passar roupa, uma babá tirou outro garoto porque aquilo não era ‘brinquedo de menino’. É um pensamento tão babaca, retrógrado. Não vai mais ser essa coisa de isso é de homem, aquilo é de mulher. É coisa da vida. Tem que fazer o que tem que fazer. Criança que cresce com esse tipo de conceito está ‘ferrada’. Nunca me senti perdido nesse ponto”, completa Edu.
“NÃO DEI O PEITO PORQUE NÃO TENHO LEITE”
Homem novo é um assunto velho na casa dos Charbel. “Tenho uma opinião formada sobre isso, e talvez fuja do padrão estabelecido desde o meu pai, que já era ‘avançadinho’ na época dele. Filho de imigrantes libaneses, ele foi o primeiro da segunda geração a não se casar com libanês, optando por se casar com uma descendente de imigrantes italianos. Conforme os filhos – quatro meninos e uma menina – iam crescendo, ele assumiu o papel de mãe e pai. Eu meio que puxei isso dele, de querer estar ativamente na criação. Dei o primeiro banho, só não dei o peito porque não tenho leite”, conta Carlos, de 47 anos, filho do “Carlão” e pai de Pedro e Marcela.
Apesar da “modernidade” do pai para a época, Charbel afirma que não vai repetir alguns de seus comportamentos. “Quando fomos para a faculdade, o sonho dele era me ver médico – Carlos é dentista –, mas no caso da minha irmã, ele achava que talvez não precisasse. Não consigo me imaginar dizendo isso para minha filha ou na hipótese dela não se sustentar ou ser sustentada por um marido rico. Falo para ela parar de namorar um cara só, namora três, vai viajar. Tem que estar em uma posição para jamais depender de macho”, diz.
“Quando comecei a namorar a Patricia (sua esposa), eu dizia que eu era filho de pobre e ela, de rico, e que ia virar pobre quando casasse comigo”, brinca Charbel. Após a faculdade, os dois – Patricia também é dentista – abriram um consultório. “Por sermos profissionais liberais, tínhamos agenda [para cuidar dos filhos], mas ela trabalhou desde sempre. Não sei se é um modelo espelhado nos meus pais, mas é uma linha de pensamento, embora as realidades sejam bem diferentes.”
EXECUTIVO APOSENTADO E DONO DE CASA AOS 53 ANOS
Charbel dá risadas na hora de falar do amigo Afrânio Camarão, executivo aposentado e seis anos mais velho: “Eu brinco que quero ser macho igual ele, mas não consigo”. Afrânio conheceu a aposentadoria neste ano, quatro décadas após se dedicar a uma mesma empresa, onde começou a trabalhar como office boy, ainda adolescente. Sem escritório para ir – ele trabalhava até 14 horas por dia –, ele admite que não era muito fã de cuidar da casa. “Sempre fui o provedor. Nunca fui cara de arrumar nenhuma fechadura. Primeiro, nunca me interessei, e segundo, eu procurava praticar esportes no tempo livre”, afirma.
Se você leu bem, Afrânio não era dono de casa. Um imprevisto fez com que o ex-executivo tomasse as rédeas dos afazeres domésticos. “Ele está se achando o dono da casa, está querendo ser interessado em tudo, faz as compras, assumiu minhas responsabilidades. Até que ele está se saindo direitinho, só na cozinha que ele não entra”, revela Cibele, de 53 anos, casada com Camarão há 29.
Ao falar da sua “administração” dentro de casa, Afrânio, que virou recentemente síndico do condomínio onde mora com a família, praticamente dá lições de economia. “Meu negócio é gestão e administrar pessoas, algo que acumulei durante 30 anos de carreira. Ser dono de casa é uma continuidade, muda o público. É o papel de uma gestão, mas de intensidade menor.” Parece brincadeira, mas ele destaca que, sob seu comando, o condomínio reduziu os custos em 28% em manutenção dos elevadores, limpeza e outros serviços.
Questionado se vai manter as funções quando a esposa voltar novamente ao controle, ele não se anima muito. “No final do ano ela volta para a normalidade. Eu saio de férias, e aí no ano que vem eu volto a fazer outras coisas”, responde. Com “outras coisas” Afrânio quer dizer investir no setor de gastronomia e mexer com o mercado financeiro, e dá sua dica: “Não pode trabalhar só com renda fixa, tem que ter renda variável”.
Embora tenha se dedicado ao trabalho desde cedo, Camarão aceitaria tranquilamente uma rotina inversa. “O modelo poderia ser invertido. Se eu casasse com uma vice-presidente eu ia ser madame, faria academia à tarde e a esperaria bonito à noite. Não me apego. Não tem problema, é inverter os papéis.”
HOMEM + MULHER = EQUIPE
“Não temos desculpas para não fazer tarefas como cozinhar e levar os filhos à escola, e uma vez que as mulheres trabalham fora, o ideal é a gente cooperar com o que costumava ser trabalho delas. Só não poderemos assumir a amamentação”, diz Ailton Amélio. “A parte social, que é convenção, tem que ser diluída. Homem e mulher podem ser uma equipe, tem que tirar os preconceitos. As mulheres saíram correndo para trabalhar fora, os homens ainda não saíram correndo para trabalhar dentro”, completa o psicólogo.
A
mania de deixar tudo para depois vai muito além da preguiça e pode esconder o
medo do fracasso. Veja se você é um procrastinador
A
procrastinação assume perfis diversos. O procrastinador por criação de problema
adia as tarefas para mais tarde porque acha que terá mais tempo. O
procrastinador comportamental até faz listas e planos, mas não segue nada do
que foi planejado. E o procrastinador retardatário faz várias coisas antes de
cumprir uma tarefa determinada anteriormente.
Segundo
o psiquiatra norte-americano Bill Knaus em artigo publicado no “Psychology
Today”, estes são os três perfis de quem tem mania de deixar tudo para depois.
Mas, para a professora-titular da USP e terapeuta analítica comportamental
Rachel Kerbay, a definição vai além.
Daniel Oliveira/Fotoarena
A
publicitária Carina já tem fama de procrastinadora até no escritório e não quis
mostrar o rosto: "é fácil começar e terminar o dia fazendo alguma coisa
que não tem nada a ver com o trabalho"
Rachel
trabalha há mais de 15 anos com o assunto e define o “autocontrole” – ou
melhor, a falta dele – como a palavra-chave para entender este distúrbio. “O
procrastinador quer sempre usufruir do resultado imediato. Não sabe planejar e
criar condições para que as coisas aconteçam. Como ele segue só aquilo que é de
seu interesse, perde o que poderia ganhar a longo prazo”, explica a professora.
Cada
um com os seus motivos
É
exatamente o que Carina Martins faz repetidas vezes. Redatora publicitária, ela
precisa trabalhar em dupla com o responsável pela arte. Mas a fama de “deixar
tudo para a última hora” já é bem conhecida entre os colegas e, no último
emprego, chegou aos ouvidos do chefe. “Como eu também sou DJ, é muito fácil
começar o dia procurando música e, quando me dou conta, passei o expediente
inteiro fazendo outra coisa que não era o trabalho”, diz.
Carina
também é do tipo que demora muitos dias para cumprir uma tarefa muito fácil,
exatamente pelo grau de exigência ser menor. Só que quando o assunto é difícil,
ela também trava. Daí o motivo é ter medo de encarar um desafio.
“Geralmente,
o procrastinador tem medo do resultado e de uma avaliação pública. Daí o
bloqueio e a decisão de não fazer nada. Para isso, ele encontra várias
desculpas –muitas vezes externas, como tempo ruim, pouco dinheiro, falta de
sorte – ou apela para a emoção para adiar os compromissos”, analisa Rachel.
O
problema é que, na maioria dos casos, ele joga o trabalho para frente com a
desculpa de que precisa de mais tempo para fazer determinado projeto, e nem por
isso faz melhor. “Eu sempre falo, ‘semana que vem eu faço com mais calma’.
Apesar da sensação ruim de angústia, acabo me enrolando de novo e dedico menos
tempo do que o trabalho de verdade precisa. A saída, então, é o improviso”,
confessa Carina.
Telemarketing:
um guia para o bom atendimento
Missão
dada não é missão cumprida
Nesse
nó de desculpas e enrolação, a preguiça – ao contrário do que muita gente
acredita – não é a resposta do problema. É só ver a disposição da Carina para
pesquisar música e fazer outras atividades que lhe dão prazer. Foi também o que
concluiu Christian Barbosa, especialista em produtividade e autor do livro
“Equilíbrio e Resultado – Por que as pessoas não fazem o que deveriam fazer”.
Christian elaborou uma pesquisa e perguntou a mais de 4 mil pessoas a seguinte
questão: “você procrastina atividades ao longo da sua rotina?”. 97,4% dos
entrevistados responderam “sim”.
De
acordo com o levantamento, exercício físico, leitura, saúde e planejamento
financeiro são as quatro coisas mais adiadas. Por outro lado, casamento,
comprar apartamento, mudar de emprego e férias são aquelas que as pessoas
realizam com mais facilidade. “Não há nada de errado em procrastinar de vez em
quando, o problema é quando isso começa a ficar crônico e passamos a adiar
frequentemente coisas que não poderiam ser adiadas”, define.
“De
maneira geral, as coisas pessoais acabam sendo as que mais adiamos. Talvez
porque na vida pessoal ninguém fique cobrando que você leia determinado livro
ou organize seu armário. Mas, no trabalho, você tem chefe e clientes que
esperam o resultado de sua produção”, ressalta Christian.
A
falta dessa figura pode ser uma das razões que faz o estudante Marcio Vincler
viver sempre no atraso. Há alguns anos, ele passou a trabalhar com a mãe. Como
precisa de dedicação semi-integral na faculdade de veterinária, e ainda dá
expediente em uma clínica, o tempo disponível para escritório é bem reduzido e
as regalias são muitas.
Apesar
de admitir que não se incomoda com as brincadeiras dos colegas, ele sabe o
quanto esse comportamento cria rótulos. “Eu não consigo chegar no horário em
nenhum lugar e as pessoas já contam com a minha demora”, diz.
Daniel Oliveira/ Fotoarena
Carina
brinca com desenho: procrastinadores temem ser tachados de
"preguiçosos"
Rir
de si mesmo nem sempre é a melhor saída
A
descontração dos procrastinadores vai embora quando é proposta uma sessão de
fotos para ilustrar esta reportagem. Aí, a desculpa da imagem a zelar fala mais
alto. Situação parecida viveu Christian Barbosa: se na primeira fase de sua
pesquisa, que era anônima, não teve dificuldades, tudo mudou quando ele deu início
à segunda etapa, que era procurar personagens e entender o dia-a-dia desse
grupo. “Eles simplesmente sumiram. Ou pediam para trocar os nomes, a idade, a
profissão. A principal preocupação era não ser mal visto pelos colegas de
trabalho”, explica.
Mesmo
assim, o procrastinador é mais tolerado no Brasil do que em outros lugares. “O
que dita a cultura são os costumes, os valores de um grupo. E a nossa não é a
do fazer, mas o de empurrar. Temos um histórico de relações cordiais, em que os
problemas se resolvem na base da amizade”, pontua Rachel Kerbauy.
A
pergunta diante deste jogo de empurra-empurra é: há uma luz no fim do túnel?
Sim. “É preciso mudar as ações, as habilidades e a fala. Ou seja, o jeito de
fazer das coisas”, afirma Rachel. É o que também acredita Christian Barbosa.
“Infelizmente, na vida nem sempre teremos apenas coisas interessantes para
fazer. É preciso aceitar isso”, diz.Segundo ele, em muitos casos, adotar uma
estratégia de produtividade dá bons resultados. Outra dica valiosa é defendida
por Rachel. “Planeje os compromissos, crie alternativas factíveis e avance aos
poucos. A recompensa neste caso não é material. É o sentimento de dever
concluído que dá impulso à mudança e se torna mais satisfatório do que o
mal-estar de um comportamento procrastinador”.
Bye
Fernanda Tripolli- especial para o iG São Paulo
Antropóloga parte de Simone de Beauvoir para traçar novo retrato do amadurecimento e constata que as mulheres envelhecem melhor que os homens. Leia entrevista
iG São Paulo
Arquivo pessoal
Mirian Goldenberg: só ao chegar à velhice as mulheres
percebem que se deram melhor
Um retrato cruel sobre o envelhecimento foi apresentado por
Simone de Beauvoir (1908-1986) no livro “A Velhice” (La Vieillesse), em 1970.
“Todo mundo sabe: a condição dos velhos é, hoje em dia, escandalosa”, disse à
época. A obra da filósofa e feminista francesa faz parte dos achados da
antropóloga Mirian Goldenberg, autora de dois livros sobre o tema, que em
agosto lançará “A Bela Velhice” (Editora Record).
“Somente um grupo discordou da ideia de que o envelhecimento
masculino é melhor que o feminino: as mulheres de mais de 60 anos
“Li e reli muitas vezes ‘A Velhice’ para poder dialogar com
a obra de Beauvoir. Busquei o tempo todo dentro do livro dela alguma saída para
o meu”, explica Mirian, que desde 2007 se aprofunda nas novas condições do
velho. Foram 1.700 questionários, 15 grupos de discussão e centenas de
entrevistas para que ela pudesse sintetizar em único texto todas as suas
reflexões – bem mais animadoras que as da mulher de Jean-Paul Sartre
(1905-1980).
“Os meus pesquisados dizem estarem vivendo muito mais,
melhor e com mais liberdades”. Os velhos de 70 anos hoje são inclassificáveis,
ou “ageless”, como ela gosta de chamar esta nova categoria. Mas para que
consigam chegar lá, é preciso saber envelhecer em todas as idades. Ela fala
sobre os passos para envelhecer melhor em entrevista exclusiva e em primeira
mão ao iG. Leia abaixo.
iG: Os livros “Coroas” (Editora Record, 2007), “Corpo,
Envelhecimento e Felicidade” (Editora Civilização Brasileira, 2011) já
abordaram a velhice. O que “A Bela Velhice” propõe?
Mirian Goldenberg:“Coroas” é o primeiro manifesto lúdico para tirar o estigma
das mulheres que estão envelhecendo. É o primeiro momento para viver esta fase
com leveza, humor e alegria. O segundo é uma coletânea de vários autores, que
busca destacar os diferentes aspectos do envelhecimento. Este novo sintetiza
todas as reflexões sobre o tema. Uma das principais questões do livro é a
diferença do envelhecimento masculino e feminino. Em todas as faixas etárias,
homens e mulheres acreditam que o envelhecimento masculino é melhor. Talvez
porque o homem não seja tão cobrado pela aparência e comportamentos. Somente um
grupo discordou dessa informação: as mulheres de mais de 60 anos.
iG: Por que este mito caiu por terra para elas?
Mirian Goldenberg: Elas sempre acreditaram que os cabelos brancos do homem eram
um charme, bem como as rugas eram um sinal de maturidade. Mas quando elas
chegam lá veem que não, que elas envelheceram melhor. Elas são mais ativas em
termos de saúde e de aparência física: elas se cuidam muito mais, vão com maior
frequência ao médico, assim como cuidam da pele, pintam o cabelo, comem melhor,
se exercitam mais, e então se sentem mais livres.
Na pesquisa, as mulheres destacam o que ganham com o envelhecimento: liberdade, alegria, foco nelas mesmas e tempo para se cuidar
iG: De que maneira elas se sentem mais livres?
Mirian Goldenberg: Na velhice, elas estão vivendo o momento como uma libertação
das obrigações que cumpriram a vida toda. Elas costumam dizer: ‘Esta é a minha
vez, a minha hora. Vou cuidar mais de mim. É o melhor momento da minha vida, é
quando posso ser livre e ser eu mesma. Pena que percebi isso tão tarde!’ Ao
longo da vida, a mulher tem mais medo de envelhecer, muito mais do que o homem.
Mas quando ela envelhece, este medo diminui bastante
iG: Como os homens vivenciam a velhice?
Mirian Goldenberg: Eles mudam muito na velhice, mas não falam tanto sobre
liberdade, pois sempre a tiveram. Por isso, eles não invejam nada nas mulheres.
Eles passam a valorizar mais a família, a casa, o afeto. Quando jovens, eles
estão muito voltados para a carreira, sucesso, para ganhar direito. Quando
chegam à velhice, valorizam mais os afetos, o que não puderam ter enquanto
estavam trabalhando. As mulheres, por outro lado, valorizam muito a aparência
quando jovens. Ficam obcecadas pelo corpo, e depois passam a falar de saúde,
qualidade de vida.
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Jane Fonda: encarando o 'terceiro ato'
iG: Superados os lados negativos da velhice, o que mais elas
ganham?
Mirian Goldenberg: Muito se fala sobre a invisibilidade social, problemas
familiares, doenças, dores, o dinheiro que não dá para tudo, aspectos ruins da
velhice. Mas quando a saúde como um todo está boa e elas têm um dinheiro mínimo
para viver, as mulheres destacam o que ganham com o envelhecimento. Liberdade,
alegria, foco nelas mesmas, ter tempo para se cuidar, fazer o que elas sempre
quiseram. Ganhos relacionados à liberdade são as questões mais valorizadas por
elas. Elas se sentem poderosas quando percebem que estão com 60 anos ou mais,
vivendo bem, com alegria e liberdade.
iG: “A Bela Velhice” é um guia de como envelhecer bem?
Mirian Goldenberg:“A Bela Velhice” sugere os passos necessários para ter um
envelhecimento mais belo e melhor. Dentre os depoimentos de 1.700 pesquisados,
destaco os principais caminhos: ter um projeto de vida, encontrar coisas que se
goste de fazer, aprender a dizer ‘não’, dar muita risada, enfrentar o medo e
buscar felicidade. Em cada capítulo vou aprofundando os temas a partir dos
depoimentos. Ouvindo os velhos, eles mesmos disseram como descobriram caminhos
para envelhecer bem.
iG: Qual a mensagem mais importante do livro?
Mirian Goldenberg: Liberdade é a palavra central. Bem como a importância de
cultivar a amizade, pois o papel das amigas é muito importante. Dizem que com
as amigas elas têm a família escolhida, não a obrigatória. Há mais
reciprocidade nessas relações. Também aceitar a idade, viver intensamente o
presente, aprender a dizer não, respeitar as próprias vontades e rir de si
mesmo.
iG: O que podemos aprender com os velhos?
Mirian Goldenberg: As pessoas mais velhas de hoje já viveram várias revoluções
comportamentais ao longo de suas vidas, nos anos 60 e 70. Revolucionaram a
forma de vestir, o sexo e o amor, e são essas pessoas que estão criando novas
imagens do velho. Hoje não enxergamos como velhas as pessoas com 70 anos. Como
o Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Ney Matogrosso são inclassificáveis,
sem idade, “ageless”. Não dá para dizer que eles são velhos! Mas não estou
falando apenas das celebridades, e sim de pessoas comuns, que fazem as mesmas
cois
iG: Como chegar aos 70 anos dentro da categoria “ageless”?
Mirian Goldenberg: A dica que dou é ter um projeto de vida em qualquer parte da
vida. Tanto os velhos de hoje, mas principalmente os velhos de amanhã. É
preciso aprender desde cedo a construir a bela velhice. Digo para os meus
alunos com 20 e poucos anos que eles precisam aprender a envelhecer, pois serão
os velhos de amanhã. E para que lá na frente não se lamentem terem valorizado a
própria liberdade tão tardiamente. Você pode ser homem, mulher, branco, negro,
homossexual ou heterossexual. Mas se viver será velho. É uma categoria que
atingirá todo mundo,