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domingo, 1 de dezembro de 2013

O Leopardo - filme

"Tudo tem que mudar para continuar o mesmo".
 
 
Sinopse

O filme passa-se na Sicília, no século XIX. Um grande proprietário sofre a perda do seu poder e influência após 'Il Risorgimento', ou seja, a unificação da Itália. As classes mais elevadas tentam ignorar os movimentos nacionalistas e ele começa a ter dúvidas acerca dos seus próprios sentimentos em relação ao que o rodeia.
Ficha Técnica
Realização
Interpretação
Ator / Atriz
 
O Leopardo - uma das obras primas de Luchino Visconti

Carlos Augusto Brandão, especial para a Italiamiga
 
O Leopardo, um dos marcos da brilhante carreira do diretor italiano Luchino Visconti, está completando 40 anos: em 1963 o famoso livro II Gattopardo, de Giuseppe Tomasi Di Lampadusa, foi eternizado pelo cinema em um dos seus momentos mais importantes. Além de O Leopardo Visconti realizou outras obras importantíssimas como Rocco e seus Irmãos, Morte em Veneza, Violência e Paixão , além de Obsessão, todos incluídos entre os clássicos do cinema universal.O épico político-histórico O Leopardo resiste ao tempo e mantém intacta a sua atualidade, mostrando nos seus 205 minutos de duração fatos e acontecimentos facilmente encontráveis nos dias de hoje. O filme tem como pano de fundo a história da Sicília centrada no século 19, quando era dominada pelo ramo espanhol dos Bourbons. O Príncipe de Salina Don Fabrizio (Burt Lancaster, no papel que o consagrou) começa a perceber que a atuação de Garibaldi iria alterar de forma inexorável a estrutura de poder então dominante na Sicília e na aristocracia local. Quando acontece o desembarque na Sicília de cerca de mil voluntários garibaldinos e a ameaça se torna iminente, Tancredi (Alain Delon), sobrinho do príncipe, sussurra para ele a fórmula mágica: "se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude". Assim, ele também participa da luta pela unificação da Itália , garante a continuidade da influência da família no poder e ao mesmo tempo a sua própria sobrevivência social , casando-se com a filha (Claudia Cardinale) do latifundiário local. Era a velha aristocracia aliando-se à força ascendente da nova época: a burguesia. Visconti retrata com fidelidade os antecedentes que geraram a decadência da nobreza siciliana e sua adaptação aos novos tempos. Afinal, ele mesmo era descendente da aristocracia lombarda: sua família dominou Milão durante 170 anos, nos séculos 13 e 14. Foi nessa cidade da Lombardia que ele nasceu em 02.11.1906, filho do agente teatral Giuseppe Visconti e de Carla Erba, a herdeira dos Laboratórios Erba. No início de sua vida, só se interessava por corridas de cavalos. Mas no começo da década de 30 ele conheceu o grande diretor francês Jean Renoir ,que o convidou para ser seu assistente em vários filmes e despertou nele o interesse definitivo pelo cinema. De volta à Itália, Visconti realizou Ossessione em 1942 - baseado no romance The Postman Always Rings Twice, de James Cain , o filme é considerado o principal precursor do movimento neo-realista - dando o início real a uma carreira brilhante no cinema . Sua atividade nas artes também incluiu um grande envolvimento com a produção teatral e de óperas, muitas em espetáculos inesquecíveis com Maria Callas no Scala. O teatro e a ópera certamente tiveram uma grande influência no seu estilo cinematográfico, o que pode ser observado em muitas características de sua obra. Entre tantos trabalhos memoráveis, O Leopardo se destaca em sua filmografia por ser também uma das obras esteticamente mais bem realizadas do cinema , valorizada pela excelente direção de arte, pelos ótimos desempenhos dos atores principais e pela perfeita trilha sonora dirigida por Nino Rota . A trilha contem uma valsa inédita de Giuseppe Verdi, na cena em que o príncipe dança com Angélica, a personagem de Cláudia Cardinale.
 
 A bela fotografia de Giuseppe Rotunno (que também fotografou Amarcord e O Show deve Continuar) retrata imagens deslumbrantes da Sicília e os opulentos interiores do Palácio Gangi San Lorenzo, cenário de inúmeras seqüências do filme. O grande diretor italiano morreu em março de 1976, aos 70 anos. Seus problemas de saúde, no entanto, começaram bem antes, em 72 , quando estava filmando Ludwig. Teve um enfarte durante os trabalhos e, posteriormente, muitos aborrecimentos devido a conflitos com os produtores que reduziram o filme para uma versão comercial. Tudo isso deve ter contribuído, sem dúvida, para agravar seu estado físico, já bastante abalado. Em 80, num reconhecimento ao grande mérito do diretor lombardo, um esforço conjunto de atores e roteiristas possibilitou que a cópia completa de Ludwig, com quatro horas de duração , fosse relançada internacionalmente . Visconti não conseguiu realizar seu sonho de adaptar para as telas Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Considerado um dos livros mais difíceis de serem adaptados , a obra teve recentemente seu lançamento no cinema no filme O Tempo Redescoberto, do chileno, radicado na França, Raul Ruiz. Mas, se Visconti o tivesse filmado - ele chegou a escrever o roteiro -provavelmente nos teria brindado com mais um clássico entre os muitos de sua carreira, na qual O Leopardo é certamente um marco inesquecível.
 

sábado, 30 de novembro de 2013

"O brasileiro está procurando outras maneiras de ser homem", diz historiadora

Organizadora do livro “História dos Homens no Brasil”, Mary del Priore diz que pais estão "inaugurando uma nova faceta" da masculinidade no Brasil, mas que a sociedade como um todo ainda é machista e que o sexo masculino também acaba sendo vítima dele

Brunno Kono| iG São Paulo




Thinkstock/Getty Images

Pais estão inaugurando uma nova faceta da masculinidade no Brasil, afirma historiadora Mary del Priore

“O heroísmo dos campos de batalha migrou para o cinema e a cama. Ali, no início do Século XX, forjaram-se padrões de comportamento masculino em que a coragem e bravura eram regras. ‘Dar no couro’ também era norma. O homem viril precisava ser igualmente incansável. As falhas, sempre discretamente tratadas. (...) Entre os anos 1960 e 1990, grandes rupturas: nascia o ‘metrossexual’. Um ‘novo homem’. (...) O aumento de revistas masculinas e a proliferação de serviços para cuidar e aperfeiçoar o corpo masculino (que alteraram não só o físico, mas a cabeça de muitos). Multiplicou-se a preocupação com a ‘diversidade’. Quantos homens cabem num só?”

Ex-professora da USP e especializada em História do Brasil, Mary del Priore questiona e busca responder esta dúvida em 12 textos organizados por ela e Marcia Amantino e publicados em “História dos Homens no Brasil” (Editora Unesp).

“'Bom cabrito não berra' ou 'homem não chora' são expressões populares que demonstram que a história dos homens não foi um passeio num cenário de conquistas e atos heroicos, mas também de dores e humilhações que os condenam a sofrer calados. É a história de lutas num ambiente extremamente adverso."

Em entrevista ao iG por e-mail, a historiadora afirma que o conceito de masculinidade sofreu diversas mudanças ao longo de décadas, influenciado por acontecimentos históricos: “Não existe um, mas vários homens brasileiros, pois sua ‘masculinidade’ não é um dado natural, mas uma variável construída de acordo com diferenças de classe, educação, religião, orientação sexual e até da área geográfica onde estão situados”.

De acordo com Priore, a figura paterna está “inaugurando uma nova faceta” da masculinidade no Brasil, mas que a “sociedade como um todo” ainda é machista. “Homens aprendem com as mães que o machismo nasce em casa”, diz. Leia a entrevista:

iG: Historicamente, quem é o homem brasileiro?
Mary del Priore: Ser homem ou se tornar um, saber que comportamentos adotar de acordo com sua época, é um longo aprendizado social. Algo relacionado não só às dimensões culturais, como também à política, à economia e aos debates relacionados à identidade nacional. Não existe um, mas vários homens brasileiros, pois sua "masculinidade" não é um dado natural. É uma variável construída de acordo com as diferenças de classe, educação, religião, orientação sexual e até da área geográfica onde estão situados. Mas o que vemos hoje e mereceu nossa atenção foi o fato de que eles estão procurando "outras maneiras de ser homem". E é delas que buscamos falar.

iG: De onde surgiu a ideia de montar o livro?
Mary del Priore: O livro dá continuidade a uma coleção que faço para a editora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e que já tem outros títulos: História das Mulheres no Brasil (prêmio Jabuti 1998), História das Crianças, (prêmio Casa Grande & Senzala da Fundação Joaquim Nabuco 2000), História do Corpo, dos Esportes e agora dos Homens. Reunimos autores conhecidos por trabalhar dentro do tema e capazes de um texto agradável e informativo. Pouca gente trabalha com o assunto, preferindo escrever sobre "gênero feminino". Fomos contra a corrente e nesse aspecto, o livro é inovador e trás mil novidades.

“O nosso problema é que a maioria das mulheres não se importa em ser vista como tal (objeto sexual). E acredita que o 'fiu fiu' faz bem para a autoestima. Os homens podem mudar? Sim. Mas é preciso que as mulheres o façam antes."

iG: De que o forma o livro é inovador e que “outras maneiras de ser homem” são essas?
Mary del Priore: O capítulo sobre o homem escravo revela o passado de nossos avôs africanos, o trabalho, uniões, práticas sexuais, fugas e violências. O celibato dos padres é outro assunto novo, bem como questões polêmicas em torno de sua sexualidade: despiam a batina e brincavam de homens comuns. No mundo rural, a virilidade se construía por meio das armas e do sexo. A sífilis era o batismo de muitos. Um pai nunca anunciava o nascimento de um filho, mas de um "macho". E os filhos bastardos eram um signo de poder sexual. A introdução dos esportes e do ar livre na vida dos homens do século XIX vai lhes permitir exibir músculos, potência. O mesmo podemos dizer do homem em armas: o exército como palco para exibições sobre a força, a honra e a violência.

iG: É dito na apresentação do livro que "o Brasil continua sendo um país machista". Como mudar isso? A mudança parte da conduta do homem ou a mulher terá que brigar como já fez muitas vezes no passado?
Mary del Priore: O machismo não é especialidade brasileira e transformações da sociedade ocidental têm oferecido chances de muitas mudanças. Quanto mais se discute o tema, maior a conscientização, que vem sendo acompanhada de regras e leis. A multiplicação de delegacias da mulher, aplicações da Lei Maria da Penha, exemplos educativos na mídia, inovação nos papéis femininos são formas de buscar soluções duráveis para o patriarcalismo estrutural. O problema é que em nosso país as mulheres também são machistas: não deixam o marido lavar a roupa, nem o filho fazer a cama, se a namorada deste briga com ele é por que é p..., só gosta de ser chamada de docinho, gostosa, tudo o que for comestível, enfim. Os homens aprendem com as mães que o machismo nasce em casa. É a sociedade como um todo que é machista.

iG: Quais transformações do mundo ocidental têm oferecido chances de mudanças?
Mary del Priore: A moda, por exemplo, permitiu novas representações em torno da masculinidade. Desde o passado mais remoto os homens de elite exibiam trajes, barbas e cabelos de acordo com tendências da época. A vaidade e o culto à beleza nunca estiveram fora de suas preocupações. Da peruca com laço de fita e escarpin de saltinho à calça jeans com camiseta branca, dos veludos e cetins ao linho ou lãs inglesas, do exibicionismo barroco à severidade burguesa, a moda é um campo para explicar transformações de hábitos e maneiras masculinas de viver. O mesmo podemos dizer da música e do cinema a partir dos anos 60, que influenciaram estilos de vida e, sobretudo, mudanças no campo da sexualidade: a cena do encontro de um jovem com uma mulher mais velha – como mostrado no filme “A Primeira Noite de um Homem – expunha os riscos da virgindade e da inexperiência masculina que começava então a mudar. Transar pela "primeira vez", ir à zona, a juventude engajada na cena pública, a revolução sexual com a chegada da pílula, tudo isso revela mudanças de paradigmas. A partir dos anos 70 e 80 vemos os gays em cena e a diluição do binômio hetero/homo.

iG: Quando se fala em mudanças, campanhas como a "Chega de Fiu Fiu" são fundamentais?
Mary del Priore: Todas as campanhas que colaborem para uma valorização da mulher em outro papel que não seja o de objeto sexual é válida. Nos países desenvolvidos existem movimentos para diminuir o assédio e evitar que a imagem da mulher fique inferiorizada. Nada de revistas pornográficas ao alcance do olhar ou cartazes chamativos de lingerie, por exemplo. O nosso problema é que a maioria das mulheres não se importa em ser vista como tal. E acredita que o "fiu fiu" faz bem para a autoestima. Os homens podem mudar? Sim. Mas é preciso que as mulheres o façam antes.

iG: Em que sentido o homem brasileiro também é uma vítima? Ele é vítima da própria sociedade que projeta esta imagem do conquistador?
Mary del Priore: Sem dúvida. "Bom cabrito não berra" ou "homem não chora" são expressões populares que demonstram que a história dos homens não foi um passeio num cenário de conquistas e atos heroicos, mas também de dores e humilhações que os condenam a sofrer calados. É a história de lutas num ambiente extremamente adverso. De sobrevivência em meio às desigualdades, de conflitos e tensões.

 

Thinkstock/Getty Images

Homem também é uma vítima histórica do machismo, diz autora de "História dos Homens no Brasil"

iG: Que dores e humilhações são essas?
Mary del Priore: A aversão à homossexualidade, o horror da “cornitude” só mencionada nos sambas de Lupicínio Rodrigues (compositor brasileiro tido como criador do termo “dor de cotovelo”), a vergonha em torno do fracasso profissional ou o silêncio sobre a falta de dinheiro, as exigências de ereções permanentes e de um desempenho sexual excepcional, dúvidas quanto à fidelidade da esposa ou dos amigos, a expectativa exacerbada da família com relação ao sucesso profissional, a vergonha da doença e do envelhecimento. São dezenas de exemplos em que o sofrimento masculino vem sendo tratado com discrição e quase vergonha. Consultórios psicanalíticos estão cheios de casos em que homens procuram socorro por não saber lidar ou falar de suas limitações. O fantasma do amante, marido, profissional e pai sem arranhões ou falhas continua a incomodar e a fazer sofrer a muitos.

iG: Fizemos recentemente uma matéria sobre o “novo homem”, que deixou uma posição até então bem definida dentro da sociedade. Quem é ele para você?
Mary del Priore: Houve grande transformação anunciada, aliás, na música (Super-Homem, a Canção) de Gilberto Gil: "Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria". Onde mais se sente a mudança é na legislação sobre paternidade. Os "direitos paternos" foram substituídos por "deveres" e a autoridade, por cuidados. As novas leis esvaziaram os poderes do velho e feroz patriarca, e hoje, ao lado do pai divorciado, homossexual, viúvo, adotivo ou ausente, vamos encontrar uma nova realidade social construída cotidianamente. Na ausência de mães, cada vez mais envolvidas na vida profissional, os "pais" estão inaugurando uma nova faceta da masculinidade no País.

iG: O "novo homem" é herança de uma mudança recente ou reflexo de um consumidor que publicações voltadas para o público masculino tentam criar, uma vez que a imagem do típico machão ficou defasada?
Mary del Priore: Tudo junto, mas, também, as novas condições nas quais vivem os tais "novos homens": idade tardia para o casamento, vida de solteiro com as responsabilidades domésticas, instabilidade econômica, descoberta de que o "emprego" eterno foi trocado pelo "trabalho" intermitente, solidão nas grandes cidades, enfim, a lista é longa. A partir daí os homens se adaptaram, passaram a cozinhar, a ir ao supermercado, a levar os filhos na escola e ao pediatra, a conviver com filhos e família de outras uniões, a viver em um mundo, ele também "novo"! Aprenderam a aprender e isso é ótimo para a sociedade como um todo.


Getty Images/Kevin C. Cox

Mary sobre o MMA: "Trata-se mais da valorização do corpo compreendido como veículo de status e poder"

iG: O último capítulo do seu livro aborda o fenômeno do MMA. Em qual homem o brasileiro se espelha? No “novo” ou no lutador?
Mary del Priore: Há de tudo e para todos. Depende do nível de educação ou da aspiração pessoal de cada um e por isso falamos sempre no plural: em masculinidades. O interessante é que ao serem introduzidos no Brasil em meados do século XIX, os esportes, até os mais violentos, vinham acompanhados da ideia de que serviam ao "desenvolvimento intelectual da mocidade". Não parece ser essa a contribuição do MMA. Por outro lado, a luta não se resume a um palco para a crueldade espetacular. Os lutadores se negam a reduzi-la à dimensão da violência. Trata-se mais da valorização do corpo compreendido como veículo de status e poder. Ou de uma forma de sociabilidade específica onde se misturam lazer, esporte e estilo de vida.

iG: O homem brasileiro possui uma identidade própria construída ao longo de séculos ou ele busca referências no exterior?
Mary del Priore: Somos mestiços de brancos, negros e índios. Aqui, diferentes culturas e saberes se integraram à sociedade brasileira. Se buscamos referencias no exterior? Sim. Modos de vestir e de comportar-se, o metrossexual, o MMA, a lista é longa. Muitos homens cabem num só. Mas, no fundo, ele é brasileiro.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Por que estamos todos mais doentes?


Sim, estamos mais doentes. Todos mergulhados num mundo em que tristeza virou depressão clínica, e que daqui a pouco um eloquente e imprescindível sentimento chamado amor passará a ser classificado de “transtorno monoerótico imaginário”. Trata-se de um mundo no qual rejeitamos a ideia de sermos normais.

Identificamos certos transtornos de forma caseira, enxergamos nossas próprias “disfunções” e nos apressamos a ir a um médico (ou a uma farmácia, nos casos mais simples) em busca de remédios, antes mesmo de serem prescritos. Invadem nossas vidas cotidianas incontáveis síndromes ligadas ao trabalho, à religião, às artes, à política – a qualquer coisa, enfim, que aparentemente nos tire da condição de “normalidade”.

Esse crescente estreitamento da noção de normalidade em nossas cabeças e o excesso de diagnóstico de doenças mentais são o principal alvo de um livro curioso, fácil e provocativo, escrito pelo psiquiatra norte-americano Dale Archer. Best-seller nos EUA como “Better than normal: how what makes you different can make you exceptional”, o livro foi recém-lançado no Brasil pela editora Sextante com o título Quem disse que é bom ser normal?.

Em oito capítulos, Archer descreve oito traços de personalidade habitualmente associados a transtornos, como a ansiedade, a personalidade histriônica e o narcisismo, e afirma que não há nada errado com essas características – podem ser meros sinônimos de alguém hiperalerta, dramático (ou carismático) e autocentrado, respectivamente. Errado mesmo, só se forem características muito exacerbadas, diz o psiquiatra.

Alívio para quem, como o signatário, é impaciente e não consegue se concentrar em uma tarefa por muito tempo. Ou para quem tem variações constantes de humor. Ou para aqueles que adoram ser o centro das atenções. Enquanto isso, a psiquiatria e a medicalização da vida dão a essas pessoas o status de portadoras de sintomas de transtornos de personalidade – déficit de atenção, bipolaridade ou similares.

“Como psiquiatra, constatei que precisava olhar de forma crítica os excessos de diagnóstico e de medicação”, escreve Archer. “Mais do que isso, sinto-me na obrigação de divulgar uma mensagem nova e libertadora sobre transtornos mentais que devolve ao lugar certo – as suas mãos – o controle de sua personalidade e de sua saúde mental”.

Para ele, o remédio tem de ser o último recurso: “As pessoas entram em um consultório e saem com uma receita médica. A psicoterapia é subestimada”.

Dr. Archer não está sozinho. Há uma “euforia da depressão”, como define o psicanalista brasileiro Jorge Forbes, para quem a serotonina ficou tão popular e íntima de nós quanto o colesterol. (Se você desembarcou agora neste planeta ou, sensatamente, caminha à margem dessa “anormalidade”, convém explicar: a falta de serotonina no seu organismo pode levar a problemas como depressão, enxaqueca e insônia, males típicos deste século).

Isso vale tanto para os EUA, foco da atenção de Archer, como para o Brasil, onde o mercado de antidepressivos e estabilizadores de humor cresceu mais de 60% nos últimos cinco anos. Um mercado felicíssimo como o mundo da melancolia – cerca de R$ 2 bilhões foram movimentados de um ano para cá, segundo a consultoria IMS Health.

Mal-estar coletivo

Quem disse que é bom ser normal? pode soar bem-humorado num tema de densidade e tensão especiais. Mas o assunto é sério, como atesta a polêmica gerada pela publicação, poucos meses atrás, da nova edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM), pela Associação Psiquiátrica Norte-americana (APA). A APA é a mais importante e influente entidade de psiquiatria do mundo. O DSM é considerado a “bíblia da psiquiatria”.

O chamado DSM-5 desencadeou uma série de artigos e livros questionando o caráter normativo de suas classificações – para muitos fundadas justamente num vertiginoso movimento de psiquiatrização da vida cotidiana. O documento amplia ainda mais o número de doenças mentais e, por tabela, aumenta as chances de alguém ser diagnosticado com os transtornos já existentes. Também reduz o número de sintomas necessários para que um paciente se encaixe em determinado diagnóstico.

Ou seja, mais pessoas tratadas com medicamentos destinados a transtornos mentais, sorriso aberto para a indústria farmacêutica. A propósito, 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 tiveram, em sua carreira recente, vínculos financeiros com essa indústria.

O avanço das doenças mentais é assombroso: o mundo da psiquiatria reconhecia 182 patologias em 1968, com a publicação do DSM-2. Doze anos depois, o DSM-3 trazia 265. Agora o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas.

Poderia ser o resultado do avanço da ciência e da criação de critérios específicos para descobrir enfermidades da alma. Mas, no limite, é um discurso que, segundo os psicanalistas Gilson Iannini e Antonio Teixeira, organiza a crença mercantil da associação entre demanda e produto – no caso, doença mental e arsenal terapêutico.

Para cada classificação, uma pílula com promessa de bem-estar. É uma espécie de epidemia às avessas: as pessoas, com seus desamparos e desordens, agarram-se aos males diagnosticados e se sentem aliviadas de poder descobrir o que têm. Acham o rótulo perdido. Buscam a salvação no diagnóstico oficial. Por outro lado, são classificadas, estigmatizadas e, muitas vezes, marcadas para a vida inteira.

Definições políticas

Assunto restrito ao meio psi? Num instigante dossiê sobre o assunto, publicado na revista Cult, o filósofo Vladimir Safatle mostrou que não. Escreveu o professor da USP:

“Tudo isso poderia interessar apenas a uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (…). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como ‘saúde’, ‘doença’, ‘normal’ e ‘patológico’, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceito de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?”.

A pensar. Um exemplo da utilidade prática desse debate para os não-especialistas é quando o assunto chega ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, o TDAH. Entre seus sintomas estão incapacidade de se concentrar, atitudes impulsivas e agitação constante. O que no passado não muito distante seria considerada uma travessura infantil hoje provavelmente vira motivo para ir a um médico, que não hesita em prescrever remédios à criança ou ao adolescente.

Os critérios de diagnóstico de TDAH esperam uma criança capaz de brincar calmamente e mostram-se inversamente proporcionais aos estímulos e à competitividade a que é exposta atualmente.

Ao mesmo tempo, e paradoxalmente, raros são os pais que não se preocupam dia e noite em como garantir aos filhos ocupação permanente: das brincadeiras coletivas a games; de televisão a passeios, dos tablets ao inglês e à natação, qualquer coisa é necessária para evitar que a criança conheça a solidão, a pausa e o tédio.

(Num livro recente, “The distraction addiction”, Alex Pang, um professor da Califórnia, afirmou que a vontade de se distrair é um vício, uma forma de dependência).

O fato é que tem parecido equivocada a muitos a ideia de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Uma vida, como diz Vladimir Safatle, cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Acrescento: uma vida de busca irrefreável da felicidade, mas incapaz de olhar de frente a tristeza e a frustração inerentes à condição de estarmos vivos.

Autor: Rodrigo de Almeida
Rodrigo de Almeida é diretor de jornalismo do iG, doutor em ciência política e, nas horas vagas, leitor de filosofia, psicanálise e literatura de não-ficção.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Conheça as “Marias Purpurinas”, mulheres que elegem os gays como melhores amigos

Heleninha, personagem do livro “Sempre Amigos”, resume a atitude das meninas que preferem principalmente amigos gays e vão sempre a baladas e locais voltados ao público LGBT

Iran Giusti, do iG São Paulo

Lançado na sexta-feira (25), o livro “Sempre Amigos” (Editora Multifoco) conta a história de Eduardo, jovem gay que está descobrindo sua sexualidade. Na trama se destaca Heleninha, uma “Maria Purpurina”, ou seja, aquela menina heterossexual que se identifica muito com o universo gay.

Para Valter Rege, autor do livro, Heleninha surge para mostrar que o amor é universal e principalmente para retratar a realidade de muitas meninas que estão por aí. “Como a maioria das Marias Purpurinas, Heleninha procura se relacionar com gays pela sensibilidade que não encontra nos homens heterossexuais”.


Arquivo pessoal
Tágide Peres e o sócio Rick Hudson entre drag queens, diversão que virou negócio

É esse o caso da publicitária Amanda Santos , 22. Nascida em Sorocaba, interior de São Paulo, conta que desde sempre foi apegada aos meninos gays. “Um dos meus melhores amigos de infância é gay e lembro que quando era pequena e mal sabia que homossexualidade existia, perguntava para a minha mãe porque meu amiguinho tinha aquele ‘jeito’ e ela me respondia que era apenas porque ele era educado demais”, relembra ela, rindo.

“Eu acredito que os gays são bem mais humanos que o resto das pessoas, inclusive mais até do que eu. Eles vivem no meio de tanto preconceito da sociedade que conseguem não ser tão preconceituosos, julgam menos os outros”, descreve a publicitária, que diz não trocar uma balada gay por nada. "Eles também sabem se divertir como ninguém".


Aline Lima conta que só passou a se sentir enturmada quando conheceu o universo gay Arquivo pessoal

 O acolhimento foi também o que encantou a analista de redes sociais Aline Lima , 22, no convívio com os gays. “Sempre fui meio estranha, meu jeito não agradava muito as meninas do colégio, e andava muito sozinha. Quando mudei de colégio e fiz amizade com um gay e vários meninos, me soltei muito mais. Na faculdade meu melhor amigo, que é gay, me mostrou o universo dele e eu me encontrei”, relata ela.

Para Aline, as músicas e a liberdade são as coisas que mais a atraem. “Posso afirmar que as pessoas mais incríveis que conheci na vida são gays. Meus amigos brincam que eu atraio. Amo nos gays a sinceridade, o companheirismo, a vontade de ser feliz, de se expressar sem se importar com as outras pessoas”, declara.

Ajudando a entender o “Poder Feminino”

A brasiliense Tágide Peres, 31, é DJ e editora-chefe de um site de cultura pop voltado para o público gay. É formada em arquitetura e foi na faculdade que conheceu seu melhor amigo e atual sócio, quando se separou do marido, com quem foi casada por dez anos.

“Foi depois do divórcio que me joguei de vez no meio gay e comecei a sair intensamente. Logo nas primeiras baladas peguei amor pelo meio, e me adaptei muito fácil. Meus amigos foram e são até hoje uma grande família, me ensinaram valores e acima de tudo a não sentir uma auto-piedade característica da maioria das recém separadas. Nunca tive pessoas que me ajudaram tanto a entender meu ‘poder feminino’, e isso levantou minha moral rapidamente e me fez seguir em frente” conta Tágide.

A DJ mostra admiração ainda pelas superações do grupo. “A maioria dos gays carrega alguma história de preconceito dentro e fora de casa, e usa isso de combustível para a superação, o tempo todo sem perder a alegria de viver, mesmo com esse cenário hostil. Eu acho isso fantástico”, admite ela.

O site que edita, Babado e Confusão, veio dessa alegria que ela compartilha com os gays. Sempre desbocada, começou a escrever na internet textos sarcásticos e espontâneos, e o sucesso foi tanto que ela se juntou ao amigo, Rick Hudson, e fundou o blog. “Quando o Babado estava prestes a completar um ano, tivemos a ideia de comemorar. A festa lotou e antes de acabar o dono da casa nos propôs outra festa. Hoje temos duas festas fixas por mês, a BCQ e GIMME", conta ela.

Código de linguagem

Para a psicóloga Janaina Leslão Garcia , o comportamento das Marias Purpurinas é algo habitual. “As pessoas procuram estar entre os que as protegem, de que conhecem os códigos de linguagem. Nossa cultura é composta por grupos, sempre foi, porque não ser esse grupo o universo gay?”.

Outro fator de aproximação citado por Amanda é que nas festas gays as meninas não são abordadas de forma bruta por rapazes, o que facilita a diversão. “Prefiro curtir minha vida com meus amigos gays do que ir numa balada hétero e me sentir um corrimão, onde os caras ficam pegando... Te puxam pela mão, não te deixam passar no meio da multidão, tentam te beijar à força... acho isso uó”, relata Amanda.

E se um dia um namorado pedir para ela deixar de ser Maria Purpurina? “Antes de namorar já é pré requisito não me pedir isso! Senão não tem papo.”

Aline, por sua vez, encontrou na faculdade um namorado “gay friendly”. “Meu namorado é hétero, mas ele também estuda design e encara super bem. Meus amigos gays adoram ele, tudo na base do respeito, ele inclusive tem vários amigos gays”, conta ela, que acha inadmissível ter amigos homofóbicos.

 

 

                                                                                                                    
Arquivo pessoal / Amanda Santos: 'Não troco balada gay por hétero'

“Meus pais tinham muito preconceito. Eu até entendo, pela criação deles e como era antigamente em relação aos gays. Mas amigos héteros homofóbicos eu não admito não. É um preconceito idiota que não dá pra aturar”, completa a analista.

Sobre essa postura de proteção que as meninas assumem com os amigos gays, Janaina Leslão diz que é relativo, porém mostra uma mudança no perfil das jovens mulheres. “Algumas meninas vão para a balada gay apenas pela diversão, mas é inegável que muitas vão porque não gostam de ser ‘cantadas’ ou tocada constantemente. As mais jovens não são tão permissivas quando as de outra geração, que entre aspas se acostumaram com o assédio.”

A psicóloga conclui explicando a importância de socializar em grupos diversos. “Tudo é saudável, na medida em que você não se prenda aos estereótipos e que não se limite. É sempre importante lembrar que, por melhor que seja a sensação de estar em um ambiente protetor, não se pode esquecer que existe um mundo inteiro para te acrescentar.”

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“Sempre Amigos”, de Valter Rege. Editora Multifoco,230 páginas. Encomendas pelo e-mail livrosempreamigos@outlook.com

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Eles casam e adotam os nomes delas: cena cada vez mais comum em São Paulo


Dados da Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo mostra que o número de homens que adotaram sobrenome das esposas saltou de 9 mil em 2002 para mais de 43 mil em 2013. Já as mulheres, no caminho inverso, estão abrindo mão do sobrenome do parceiro

Brunno Kono| / iG São Paulo

Levantamento mostra que mais homens adotam o sobrenome da mulher e elas seguem o caminho inverso
Quando Marcel Tavares Batista decidiu abrir mão do sobrenome do pai pelo Duz, da família de Vanessa, sua esposa, os protestos foram grandes dentro de casa. “Comentei com minha mãe, ela ficou brava, seca, nem queria falar comigo. A gente conversava, ela voltava no assunto, alfinetava, dizia que eu ia desistir do nome do meu pai, da minha família”, diz o estudante de Farmácia de 28 anos.

Ele foi em frente e quando se casou, em setembro passado, passou a se chamar Marcel Tavares Duz, enquanto Vanessa, de 22 anos, agora é Vanessa Regina Tavares Duz. A mãe dele não gostou, mas os sogros aprovaram.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"Saímos de uma posição definida. Ainda bem", diz psicólogo sobre "novo homem"

Os dias do típico machão provedor estão contados ou já ficaram para trás. Para o psicólogo Antônio Carlos de Araújo , o homem que está tomando ou vai tomar em breve seu lugar ainda não se encontrou, está perdido: “Ele está em uma sinuca de bico”. Aparentemente, nem todos

 
Brunno Kono| iG São Paulo
 
 

“O que está perdido não sabe como agradar, enquanto o das antigas, aquele que permanece na década de 40, acomodado no seu papel, perde a mulher porque nenhuma precisa de um homem para viver financeiramente. Esse é arredio à terapia, não acredita nela, e quando vem, vem no desespero, quando a mulher já pediu o divórcio. Inevitavelmente, este tipo de homem está em extinção.”
É com palavras duras que Antônio Carlos Alves de Araújo, psicólogo e terapeuta de casais há 25 anos, define o homem que pode nem aparentar ser o típico machão de sempre, mas que enxerga homens e mulheres com papéis estabelecidos na sociedade, principalmente quando o assunto é relacionamento: ele trabalha, ela cuida dos assuntos domésticos.
 
Já os que não se encaixam neste perfil se encontram em uma “sinuca de bico”, defende Araújo. “Ele não sabe o que fazer, tem medos e receios, não foi criado e educado para isso, e é isso que a gente tem que mudar”, diz. Acostumado a também tratar jovens, o psicólogo associa o surgimento de uma mulher independente e decidida com casos de impotência sexual psicológica masculina: “No ano passado foram 550 casos de disfunção erétil entre homens de até 25 anos. Eles têm medo de mulher. Esse é o novo homem, um ser absolutamente fragilizado”. O psicólogo explica que o alto número de pacientes do sexo masculino se deve à vergonha que eles têm de se consultar com profissionais mulheres.
Antônio Carlos acredita que os papéis de homens e mulheres acabaram “distorcidos”. Ailton Amélio, psicólogo e professor do Instituto de Psicologia da USP, compartilha – e comemora – a opinião. “O novo homem abandonou a posição do perfil anterior, do provedor, cabeça do casal, sem sentimentos, racional. Saímos de uma posição definida. Ufa, ainda bem que a abandonamos. O sexo feminino também era definido naqueles papéis mais tradicionais, de cuidar da casa, dos filhos, mas houve um movimento. Um movimento justo, por sinal.”
 
Amélio ressalta que o espaço que as mulheres ganharam ainda não é suficiente, “basta ver a diferença de salários, presença em cargos políticos ou na direção de companhias” – levantamentos recentes feitos com empresas brasileiras apontam que eles têm 20 vezes mais chances de virar CEOs e que apenas 23% dos postos corporativos de liderança são ocupados por elas.
No entanto, ele diz que as conquistas femininas foram fortes o suficiente para os homens não se sentirem mais confortáveis defendendo o perfil “machão”. Sobre o sexo masculino estar perdido, ele concorda com Araújo. “Quando você não sabe os parâmetros, o que fala, o que não fala, é uma situação incômoda. Não tem um lugar de conforto, onde você se sinta seguro. Porque por qualquer coisa você poderá ser acusado de machista, e, por outro lado, se você ficar quieto, pode ser chamado de frouxo.”
 
SAIR DA ZONA DE CONFORTO NÃO É RUIM
 
José Borbolla Neto já viveu os dois lados da moeda. O gerente de marketing de 31 anos “desconfia” que um dos fatos que causou o término de um dos seus relacionamentos anteriores foi o perfil da companheira, “mais tradicional, de querer ter filhos”. “Eu tinha pretensões profissionais, acadêmicas, esse lado de querer realizar coisas”, explica.
Ele namora há cerca de um ano uma publicitária com quem compartilha essas ambições. “Estar ao lado de alguém que tem o perfil de querer atingir determinados níveis, profissionais ou acadêmicos, é muito bom. Você tem uma parceira”, diz. Borbolla confessa ser fã da “mulher moderna”, e a defende. “Elas não buscam o cara que vai puxar a carroça, mas o cara que vai ajudar a puxar. Ela conquistou um espaço e quer usá-lo da maneira como convir. Tem que fazer isso mesmo.”
Na opinião do gerente, tirar os homens “que têm um pé na modernidade e outro no machismo” da zona de conforto não é ruim “porque para conquistar essa mulher, o cara vai ter que ser bom, ele vai ter que melhorar”. E será que a “nova mulher” acaba com as atitudes associadas ao “cavalheirismo”, como abrir a porta e pagar a conta? “Existe um componente de espontaneidade na execução desse tipo de coisa que é importante, não pode ser protocolar. Se for natural, acho que sobrevive normalmente. Nada te impede de aparecer com uma flor de vez em quando. É questão de timing”, afirma Borbolla.
 
“SOU DONO DE CASA E ME ORGULHO DISSO”
 
Em conjunto com a esposa, Eduardo Moraes, de 39 anos, decidiu que ela iria deixar o trabalho para ficar com João, filho recém-nascido do casal, “até o dinheiro acabar”. Essa estratégia durou por dois anos, e há seis meses é ele quem fica com o garoto pela manhã e depois o leva à escola. Fotógrafo, ele diz que a agenda flexível permitiu isso, mas que se trabalhasse em horário comercial eles teriam que pagar uma babá, algo que eles não querem: “A gente quer criar”.
Além de cuidar do pequeno João, Moraes também se encarrega de fazer o mercado, o jantar e às vezes dar um jeito na casa. “Eu sou uma dona de casa e me orgulho disso”, brada. “Gostaria que minha mulher fosse uma executiva que ganhasse R$ 30 mil por mês, aí eu ficava em casa, tirava fotos por hobby, fazia a comida, praticava esportes”, brinca.
Como os pais trabalhavam muito, o fotógrafo, ao lado de uma empregada, teve que cuidar do irmão mais novo, experiência que ele acredita ter sido muito útil na hora de exercer o papel de pai.
Foi em um dos momentos de “pai e filho” que ele se indignou certa vez. “Tem uma cozinha na brinquedoteca do clube, o João estava brincando de passar roupa, uma babá tirou outro garoto porque aquilo não era ‘brinquedo de menino’. É um pensamento tão babaca, retrógrado. Não vai mais ser essa coisa de isso é de homem, aquilo é de mulher. É coisa da vida. Tem que fazer o que tem que fazer. Criança que cresce com esse tipo de conceito está ‘ferrada’. Nunca me senti perdido nesse ponto”, completa Edu.
 
“NÃO DEI O PEITO PORQUE NÃO TENHO LEITE”
 
Homem novo é um assunto velho na casa dos Charbel. “Tenho uma opinião formada sobre isso, e talvez fuja do padrão estabelecido desde o meu pai, que já era ‘avançadinho’ na época dele. Filho de imigrantes libaneses, ele foi o primeiro da segunda geração a não se casar com libanês, optando por se casar com uma descendente de imigrantes italianos. Conforme os filhos – quatro meninos e uma menina – iam crescendo, ele assumiu o papel de mãe e pai. Eu meio que puxei isso dele, de querer estar ativamente na criação. Dei o primeiro banho, só não dei o peito porque não tenho leite”, conta Carlos, de 47 anos, filho do “Carlão” e pai de Pedro e Marcela.
Apesar da “modernidade” do pai para a época, Charbel afirma que não vai repetir alguns de seus comportamentos. “Quando fomos para a faculdade, o sonho dele era me ver médico – Carlos é dentista –, mas no caso da minha irmã, ele achava que talvez não precisasse. Não consigo me imaginar dizendo isso para minha filha ou na hipótese dela não se sustentar ou ser sustentada por um marido rico. Falo para ela parar de namorar um cara só, namora três, vai viajar. Tem que estar em uma posição para jamais depender de macho”, diz.
“Quando comecei a namorar a Patricia (sua esposa), eu dizia que eu era filho de pobre e ela, de rico, e que ia virar pobre quando casasse comigo”, brinca Charbel. Após a faculdade, os dois – Patricia também é dentista – abriram um consultório. “Por sermos profissionais liberais, tínhamos agenda [para cuidar dos filhos], mas ela trabalhou desde sempre. Não sei se é um modelo espelhado nos meus pais, mas é uma linha de pensamento, embora as realidades sejam bem diferentes.”
 
EXECUTIVO APOSENTADO E DONO DE CASA AOS 53 ANOS
 
Charbel dá risadas na hora de falar do amigo Afrânio Camarão, executivo aposentado e seis anos mais velho: “Eu brinco que quero ser macho igual ele, mas não consigo”. Afrânio conheceu a aposentadoria neste ano, quatro décadas após se dedicar a uma mesma empresa, onde começou a trabalhar como office boy, ainda adolescente. Sem escritório para ir – ele trabalhava até 14 horas por dia –, ele admite que não era muito fã de cuidar da casa. “Sempre fui o provedor. Nunca fui cara de arrumar nenhuma fechadura. Primeiro, nunca me interessei, e segundo, eu procurava praticar esportes no tempo livre”, afirma.
Se você leu bem, Afrânio não era dono de casa. Um imprevisto fez com que o ex-executivo tomasse as rédeas dos afazeres domésticos. “Ele está se achando o dono da casa, está querendo ser interessado em tudo, faz as compras, assumiu minhas responsabilidades. Até que ele está se saindo direitinho, só na cozinha que ele não entra”, revela Cibele, de 53 anos, casada com Camarão há 29.
Ao falar da sua “administração” dentro de casa, Afrânio, que virou recentemente síndico do condomínio onde mora com a família, praticamente dá lições de economia. “Meu negócio é gestão e administrar pessoas, algo que acumulei durante 30 anos de carreira. Ser dono de casa é uma continuidade, muda o público. É o papel de uma gestão, mas de intensidade menor.” Parece brincadeira, mas ele destaca que, sob seu comando, o condomínio reduziu os custos em 28% em manutenção dos elevadores, limpeza e outros serviços.
Questionado se vai manter as funções quando a esposa voltar novamente ao controle, ele não se anima muito. “No final do ano ela volta para a normalidade. Eu saio de férias, e aí no ano que vem eu volto a fazer outras coisas”, responde. Com “outras coisas” Afrânio quer dizer investir no setor de gastronomia e mexer com o mercado financeiro, e dá sua dica: “Não pode trabalhar só com renda fixa, tem que ter renda variável”.
Embora tenha se dedicado ao trabalho desde cedo, Camarão aceitaria tranquilamente uma rotina inversa. “O modelo poderia ser invertido. Se eu casasse com uma vice-presidente eu ia ser madame, faria academia à tarde e a esperaria bonito à noite. Não me apego. Não tem problema, é inverter os papéis.”
 
HOMEM + MULHER = EQUIPE
 
“Não temos desculpas para não fazer tarefas como cozinhar e levar os filhos à escola, e uma vez que as mulheres trabalham fora, o ideal é a gente cooperar com o que costumava ser trabalho delas. Só não poderemos assumir a amamentação”, diz Ailton Amélio. “A parte social, que é convenção, tem que ser diluída. Homem e mulher podem ser uma equipe, tem que tirar os preconceitos. As mulheres saíram correndo para trabalhar fora, os homens ainda não saíram correndo para trabalhar dentro”, completa o psicólogo.