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domingo, 3 de março de 2013

"The Normal Bar”(livro)

Livro "The Normal Bar" traz dados de megapesquisa com 100 mil participantes, derruba alguns mitos e se propõe a revelar os novos padrões sexuais e afetivos dos casais

Ricardo Donisete , iG SP

Lançado semana retrasada nos Estados Unidos, o livro “The Normal Bar” pretende desnudar a vida sexual de casais ao redor do mundo. Baseada em uma pesquisa na internet com 100 mil pessoas de diferentes nacionalidades, a publicação reforça algumas percepções sobre sexo -- a de que os casados fantasiam com outras pessoas, por exemplo -- e derruba impressões antigas, como a de que mulheres não gostam de pornografia ou que casais com filhos transam muito menos que casais sem filhos.

Também quantifica, de maneira impactante, algumas percepções populares. Como o fato de 45% dos homens ouvidos se sentirem atraídos pelas amigas da mulher. Entre elas, a porcentagem de interessadas nos amigos do marido é menor: 26%.

Escrito pela expert em relacionamentos Chrisanna Northrup e pelos sociólogos Pepper Schwartz e James Witte, o livro é autointitulado como “a mais vasta pesquisa sobre relacionamentos românticos já feita”. Como o título sugere, a obra pretende definir quais são os padrões sexuais e afetivos dos casais dos dias atuais. Para produzir esse painel, foram ouvidos homens e mulheres em países como Canadá, Espanha, Itália, Inglaterra, China, França, Austrália e Filipinas, entre outros.

Confira a seguir alguns dos dados mais interessantes do levantamento:

Thinkstock Photos

Ouvindo 100 mil pessoas ao redor do mundo, pesquisa "The Normal Bar" tentou desvendar o que os casais andam fazendo debaixo dos lençóis

Infidelidade nos relacionamentos 

Como mostra o dado já citado, pessoas casadas fantasiam em fazer sexo com outras pessoas que não o marido ou a esposa. Mas o levantamento mostra que esse desejo vai além das amizades dos parceiros. 90% dos homens admitem que tem desejo por mulheres que conhecem, que podem ser do trabalho ou de outro meio que eles frequentam. Já entre elas, a porcentagem é de 61%.

“A sexualidade é anárquica e o nosso desejo também, não é uma coisa que nós conseguimos controlar. O que podemos conter é nosso comportamento diante disso. Trair é uma escolha”, explica a psicóloga e terapeuta sexual Lana Harari, que não se surpreende com os dados apresentados.

E as pessoas que traíam, por que fizeram essa escolha? O tédio aparece como grande motivo para os homens e também para as mulheres, com 71% e 49%, respectivamente. O segundo lugar também foi o mesmo para ambos os sexos, com as pessoas traindo porque estavam com raiva do parceiro, com a porcentagem de 38% entre as mulheres e de 26% entre os homens.

Tudo o que você queria saber sobre o sexo

O livro traz ainda um calhamaço de dados quando se trata das aventuras dos casais em suas camas. Tanto os homens quanto as mulheres gostariam que seus parceiros fossem bem mais ousados na hora sexo. 94% deles tem esse desejo. Já entre elas, a porcentagem é um pouco menor, 78%.

Além da ‘ousadia’, mulheres e homens também querem outras coisas para o sexo ficar melhor com seus parceiros. Para ficarem mais satisfeitas na cama, elas querem preliminares caprichadas (25%), mais romance (20%) e espontaneidade e diversão (19%) de seus namorados e maridos.

A lista de três desejos dos rapazes é um tanto diferente. Os homens querem que suas parceiras aceitem fazer coisas novas (30%) e sejam mais ativas e menos passivas na hora do sexo (22%). Por fim, eles querem que elas façam mais barulho durante a transa (16%).

“The Normal Bar” também indicou as duas posições sexuais favoritas tanto dos homens quanto das mulheres. A posição conhecida como ‘cachorrinho’ ficou em primeiro com 40% e a ‘cavalgada’ em segundo, com 24%.
Entre os 25% dos casais que fizeram sexo anal, apenas 6% das mulheres e 2% dos homens não gostaram
Entre elas, o tradicional ‘papai e mamãe’ ainda faz sucesso, levando 30% da preferência, ficando em primeiro. A ‘cavalgada’ também ficou em segundo na preferência das mulheres, também com 24%.
A pesquisa internacional também revelou que 25% dos casais já fizeram sexo anal . Em países como França e Itália a porcentagem é maior, chegando a 46% e 45%, respectivamente. Entre os indivíduos de todo o mundo que praticaram a modalidade sexual, apenas 6% das mulheres e 2% dos homens não gostaram.

Divulgação
Capa do livro "The Normal Bar", que ainda não tem previsão de lançamento no Brasil

Orgasmo e pornografia

O prazer do parceiro não é uma preocupação de todos os maridos e mulheres. 65% dos homens se preocupam se a parceira chega ao orgasmo. A porcentagem entre as mulheres é parecida: 67% delas ficam atentas para saber se eles ‘chegaram lá’.

A pornografia tem mais apelo com os homens do que as mulheres pesquisadas. 89% deles apreciam vídeos eróticos. Mas entre elas o índice ficou longe da minoria: 59%.

O estudo mostrou uma diferença significativa nesse tema. Os maridos e namorados preferem ver esse tipo de filme sozinhos, já as esposas e namoradas gostam de vê-los ao lado dos parceiros.

A maioria mente para o (a) parceiro (a)

Muita gente pode ficar chocada, mas a mentira faz parte dos relacionamentos bem-sucedidos. Pelo menos é o que sustenta a pesquisa. 69% dos casais que se dizem felizes admitem que mentem ocasionalmente aos parceiros. “São coisas como não contar o preço real de uma peça de roupa cara para não desagradar o outro”, explicam os autores do livro.

“Mentir muitas vezes é uma forma de ter alguma privacidade na relação, já que os parceiros de um casal frequentemente são tratados como uma pessoa só, uma entidade única sem individualidade”, analisa Lana. “Mas isso vira um problema quando a mentira é um segredo com a intenção de prejudicar o outro”, pondera a terapeuta.

Menos sexo para quem tem filhos?

Ao contrário do que muita gente imagina, não há muita diferença quando se compara a vida sexual de casais com ou sem filhos. Nas duas situações, as porcentagens de pares que fazem sexo diariamente, frequentemente, ocasionalmente ou raramente se equivalem.

Entre os casais sem filhos, as porcentagens exatas são: 41% dos pares transam 3 a 4 vezes por semana, 26% poucas vezes por mês, 12% raramente e 9% uma vez por mês. Quando se fala em extremos, ambos os números são baixos. 9% praticam sexo todo dia e 4% nunca o fazem.
Os casais com filhos apresentam dados quase iguais: 36% têm sexo 3 a 4 vezes por semana, 30% poucas vezes por mês, 15% raramente, 9% uma vez por mês, 6% diariamente e 6% nunca fazem. Vale lembrar que as porcentagens não somam 100% porque os números são arredondados.


sábado, 2 de março de 2013

Estudar faz pessoas serem mais felizes e viverem mais


Um estudo recente sobre aspectos da educação mostra que quem estuda mais tende a ser mais feliz e ter uma expectativa de vida maior. O levantamento What are the social benefits of education? (Quais são os benefícios sociais da educação?, em tradução livre) foi produzido pela OCDE(Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e realizado em 15 países membros da organização – do qual o Brasil não faz parte. “A educação ajuda as pessoas a desenvolver habilidades, melhorar a sua condição social e ter acesso a redes que podem ajudá-las a terem mais conquistas sociais”, dizem os autores da pesquisa.

Segundo o estudo, as pessoas que estudam mais são mais felizes porque tem maior satisfação em diferentes esferas de sua vida. Esse nível de satisfação pessoal é de, em média, 18% a mais para que têm nível superior em relação àquelas que pararam no ensino médio.


crédito Uros Petrovic / Fotolia.com

Em relação ao aumento da expectativa de vida, o estudo mostra que um homem de 30 anos, por exemplo, pode viver mais 51 anos, caso tenha formação superior, enquanto aquele que cursou apenas o ensino médio viveria mais 43, ou seja, oito anos menos. Essa disparidade é mais acentuada na República Tcheca, onde os graduados podem viver 17 anos a mais. Já os portugueses, asseguraram a diferença mais baixa, apenas 3.

O estudo, divulgado no fim do mês passado, encerra a Education Indicators in Focus, série composta por 10 estudos, apresentados ao longo de janeiro de 2012 a janeiro de 2013, que destacam diferentes aspectos educacionais avaliados da educação básica ao ensino superior. Entre eles, como a crise global afeta as pessoas com diferentes níveis de escolarização, quais países estão dando suporte ao acesso ao ensino superior e qual a variação no número de alunos ao redor do mundo. Os interessados em acompanhar as pesquisas podem acessá-las gratuitamente on-line em três versões: inglês, espanhol e francês.No caso das mulheres, a diferença não é tão acentuada: a expectativa média de vida é de quatro anos a mais para as universitárias. À frente desta tabela estão as nascidas na Letônia, que vivem quase nove anos mais do que as compatriotas que interromperam os estudos no antigo segundo grau.

“Os políticos devem ter em conta que a educação pode gerar benefícios sociais mais amplos desde que haja mais investindo em políticas públicas.”

Em outro capítulo desse mesmo levantamento, realizado com um grupo de 27 países, a OCDE chegou à conclusão de que 80% dos jovens com ensino superior vão às urnas, enquanto o número cai para 54% entre aqueles que não têm formação superior. Os adultos mais escolarizados também são mais engajados quando o assunto é voluntariado, interesse político e confiança interpessoal. “A educação tem o potencial de trazer benefícios para as pessoas e para as sociedades, e isso vai muito além da contribuição para a empregabilidade dos indivíduos ou de renda”, afirma os autores da pesquisa, que enfatiza ainda a importância do Estado. “Os políticos devem ter em conta que a educação pode gerar benefícios sociais mais amplos desde que haja mais investindo em políticas públicas”.

Sala de aula

Nos países da OCDE, a quantidade média de alunos em sala de aula é de 23, embora o número varie de acordo com cada país. Na Coreia e no Japão chega a 32; enquanto na Eslovênia e Reino Unido não passa de 19 por classe, segundo mostra o estudo How Does Class Size Vary Around the World? (Como a sala de aula varia ao redor do mundo?, em tradução livre), divulgado em novembro de 2012. A pesquisa mostra que entre 2000 e 2009 muitos países investiram recursos adicionais para diminuir o número de estudantes em sala de aula, no entanto, o desempenho melhorou em apenas alguns deles. “Reduzir o tamanho da turma não é, por si só, uma alavanca política suficiente para melhorar o rendimento dos sistemas de ensino, mas, sobretudo, priorizar a qualidade dos professores em relação ao tamanho da classe”, aponta a pesquisa.
Fonte: Porvir

sexta-feira, 1 de março de 2013

Na China, famílias apostam tudo para filhos chegarem à universidade


Conheça a história e os sacrifícios de um casal de agricultores que priorizou educação da filha ao longo da vida, mas não tem certeza de que recompensa virá
NYT 

Wu Yiebing desce centenas de metros até uma mina de carvão praticamente todos os dias e lá empunha uma furadeira elétrica por um salário de R$ 1000 por mês com um único objetivo em mente: pagar pela educação da filha. A esposa, Cao Weiping trabalha do amanhecer ao pôr do sol em pomares de maçã durante a temporada, de maio a junho, quando ganha R$ 25 por dia para amarrar pequenos sacos de plástico em torno de cerca de 3.000 maçãs verdes, ainda nas árvores, para protegê-las de insetos. O resto do ano, ela trabalha como balconista substituta, também ganhando pouco por dia, com o mesmo propósito. 

O esforço do casal é o de milhões de famílias chinesas de baixa renda que suportam uma carga financeira pesadíssima para tentar prover aos seus o maior nível educacional possível. No entanto, um diploma universitário já não garante um trabalho bem remunerado, porque o número de diplomados na China quadruplicou na última década.
NYT
Wu Caoying, 19 anos, está no primeiro ano de faculdade e é esperança dos pais para o fim da vida

Wu e Cao, que cresceram em pequenas aldeias no oeste do país e migraram em busca de melhor remuneração, tiveram uma vida pobre. Por quase duas décadas, eles viveram em um apertado apartamento de 19 metros quadrados, com um telhado de sapé. Eles nunca tiveram um carro, não tiram férias – e nunca viram o mar. Ignoraram tradicionais viagens de Ano Novo para a aldeia ancestral por cinco anos seguidos para economizar em tarifas de ônibus e presentes, e para que Wu ganhasse o subsídio de férias extra nas minas. Apesar de sua fragilidade, eles não têm reserva alguma para a aposentadoria.

Graças a esses sacrifícios, a filha do casal, Wu Caoying, 19, agora está no primeiro ano da faculdade. Ela está entre os milhões de estudantes universitários chineses que foram muito mais longe do que seus pais poderiam ter sonhado. Mas apesar de todo o trabalho duro, ninguém têm certeza se o estudo irá compensar. A filha é ambivalente a respeito de permanecer na escola, onde o custo da anuidade, moradia e alimentação é mais da metade da renda anual combinada dos pais. Mesmo sendo uma estudante ligeiramente acima da média, pensa em desistir, encontrar um emprego e ganhar dinheiro.

"Toda vez que minha filha liga para casa, diz: 'Eu não quero continuar isso'", disse Cao. "E eu digo: 'Você tem que continuar estudando para cuidar de nós quando ficarmos velhos', e ela diz: 'É muita pressão, eu não quero ter toda essa responsabilidade'".

NYT/ Cao Weiping e Wu Yiebing no quarto da família com paredes cobertas por cartazes de atriz. Eles investiram tudo para dar educação à filha

Wu sonha em trabalhar em uma grande empresa, mas sabe que muitos graduados acabam desempregados. "Eu acho que posso começar minha própria pequena empresa", diz ela, apesar de reconhecer que não tem o dinheiro ou a experiência necessários.

Para um pai agricultor na China, cada ano de ensino superior custa em média de seis a 15 meses de trabalho, e é difícil para os filhos de famílias pobres obter bolsas de estudo ou outros apoios governamentais. Além disso, eles ainda pagam muitas taxas associadas com o envio de seus filhos para o ensino elementar, médio e superior. Muitos pais também contratam tutores para que seus filhos possam ter notas altas o suficiente nos exames de admissão para entrar na faculdade. E no fim das contas, os cidadãos chineses que apostam todas as suas economias na educação dos filhos têm poucas opções de sobrevivência se a prole for incapaz de encontrar um trabalho após a graduação.

As experiências de Wu Caoying, cuja família o The New York Times acompanha há sete anos, são uma janela para as oportunidades de expansão de ensino e os obstáculos financeiros enfrentados por famílias de toda a China. Os sacrifícios dos pais para educarem sua filha explica como o país consegue formar 8 milhões de chineses anualmente em universidades e faculdades comunitárias.

Mas os custos de educação superior coincidem com um crescimento mais lento da economia chinesa e a alta do desemprego entre os recém-formados. A possibilidade de jovens como Wu encontrarem empregos que lhes permitam ganhar a vida e ajudar seus pais após a graduação pode ser um grande teste da capacidade da China de manter um crescimento econômico rápido, além de sua estabilidade política e social nos próximos anos. Conheça a história:

Deixando a aldeia

A antiga vila de Mu Zhu Ba está situada em um penhasco com vista para um desfiladeiro íngreme no sudoeste da província de Shaanxi, a aproximadamente 1500 quilômetros de Pequim. Os poucos hectares de terra plana eram até recentemente dedicados para o plantio de milho, arroz e legumes.

Os moradores eram agricultores de subsistência. Todos trabalhavam de sol a sol no plantio, capina e colheita destes produtos que usavam para se alimentar. O trabalho incansável deixava pouca oportunidade para a educação. Cao, 39, aprendeu a ler alguns caracteres chineses nas aulas do primeiro e segundo ano realizadas em sua aldeia. Mas as séries posteriores eram ensinadas em uma escola em uma aldeia maior na outra extremidade do vale, uma caminhada de sete quilômetros de distância, que fez com que Cao abandonasse as aulas.

Seu marido, agora com 43, cresceu em uma vila pobre da mesma forma do outro lado da montanha e não frequentou a escola.

Eles se casaram cedo e Cao tinha acabado de fazer 20 anos quando deu à luz Wu Caoying. O casal ganhava apenas R$ 50 por mês. Quando o bebê cresceu, começaram a se preocupar que ela inevitavelmente abandonaria a escola cedo se tivesse que andar tão longe para frequentar as aulas. Assim como centenas de milhões de outros chineses nas últimas duas décadas, decidiram deixar sua aldeia e suas famílias.

"Todos os pais na aldeia querem que seus filhos frequentem a faculdade, porque só o conhecimento muda o destino", disse Cao.
Quando Wu chegou ao ensino fundamental, o ar da montanha cristalina de Mu Zhu Ba era uma lembrança distante. A família mudou-se para Hanjing, uma comunidade de mineração de carvão nas planícies ao norte da província de Shaanxi, a cerca de 300 km a nordeste de sua aldeia ancestral.

A filha de um mineiro de carvão

Wu Yiebing construiu a casa da família sozinho. Eles compraram a primeira pequena geladeira, um fogão de carvão, um aparelho de som usado e uma lâmpada para a sala de estar e outra para o quarto.

A casa, na periferia rural da cidade, fica ao lado de uma estrada de duas pistas pavimentadas, onde do outro lado existe uma mina de carvão pequena na qual Wu aprendeu a manobrar uma furadeira elétrica e trabalhou em turnos longos. Ele ganhava cerca de R$ 400 por mês, na época, mais o dinheiro para educar a filha.

No quarto da família, onde cartazes da atriz Zhang Ziyi foram colados nas paredes para fornecer isolamento extra, Cao cuidadosamente guardava todos os trabalhos escolares da filha. Wu Caoying estava na sétima série, mas sua escola já lhe ensinava geometria e álgebra em um nível muito mais avançado do que aquele ministrado a americanos na mesma série. Ela também estudava história, geografia e ciências, enchendo cadernos com uma caligrafia elegante.

O problema era o inglês, uma qualificação cada vez mais importante para os alunos que queriam entrar nas melhores universidades. A vila tinha um professor da língua, e Wu começou a aprender inglês na quarta série. Mas, então, o professor partiu e ela não foi capaz de estudar na quinta e sexta séries e só retomou no ano seguinte.

No ensino médio, Wu Caoying começou a frequentar uma escola estatal muito mais longe da casa da família. Muitas escolas na China são internatos, um acordo que permite que os governos locais imponham pesadas taxas sobre os pais. A mensalidade somava R$ 330 por semestre. Para a alimentação eram R$ 15 por semana. Livros, aulas particulares e taxas de exames eram todos extra.


NYT / Yiebi­ng acompanha os estudos de inglês da filha Wu Caoyi­ng, em Hanji­ng, China

No internato

Wu e outras sete adolescentes dormiam em beliches apertados em um dormitório. Ela vestia-se melhor do que as outras garotas, com um casaco azul apertado que sua mãe tinha acabado de lhe dar para o Ano Novo Chinês.

Ela acordava às 5h30 todas as manhãs para estudar, tomava café da manhã às 7h30, em seguida, assistia a aulas das 8h30 às 12h30, 13h30 às 17h30 e das 19h30 às 22h30. Para entretenimento, havia apresentações ocasionais de filmes patrióticos. Ela estudava parte do dia aos sábados e domingos. Mas também entrou para um grupo voluntário que visitava os idosos.

Seu pai, Wu Yiebing já não trabalhava na mina de carvão do outro lado da rua, que foi fechada por causa de uma combinação de preocupações dos reguladores de segurança e o esgotamento da camada de carvão. Ele havia migrado uma vez mais para um trabalho a 13 horas de distância de trem, em uma mina de carvão no deserto do norte. Wu trabalhava 10 horas por dia em períodos de até 30 dias consecutivos. As normas de segurança eram menores na nova mina - e essa é uma indústria que mata milhares de mineiros em acidentes de trabalho todos os anos, e mutila muitos mais.

O novo trabalho, no entanto, permitiu que Wu dobrasse sua renda, e ele trazia de volta o seu pagamento a cada dois meses para a sua esposa pagar a educação da filha.
Sua principal preocupação era o desempenho acadêmico dela, pois pensavam que não estudava o suficiente. "Ela gosta de conversar com os meninos, apesar de não ter um namorado", disse Cao na época.

NYT/
Após mina de carvão em frente à casa fechar, Wu Yiebing começou a trabalhar mais e mais longe

Sua filha ficava em 16º lugar em sua classe de 40 alunas, algo respeitável, mas não bom o suficiente a seus olhos. Mas eles se desesperavam por não poder ajudá-la quando chegava em casa no fim de semana. "Nós só temos o ensino fundamental. Nós realmente não sabemos o que ela está estudando", Cao reconheceu.

Sentado em casa enquanto sua filha estava na escola um dia há vários anos, Wu Yiebing disse que estava tão decepcionado com o desempenho de sua filha que não se importaria se ela abandonasse os estudos, pegasse um trem para a província de Guangdong, a 30 horas de distância da costa, e aceitasse um trabalho na linha de montagem de uma fábrica.
Probabilidades contra a juventude rural

À medida que Wu Caoying se aproximava dos exames nacionais para o ensino superior na Primavera de 2011, as probabilidades estavam contra ela, e custos mais pesados caíram sobre os seus pais, como resultado.

Jovens de famílias pobres e rurais acabam pagando mensalidades muito maiores na China do que as crianças de famílias abastadas e urbanas. No entanto, eles frequentam instituições consideravelmente piores, segundo especialistas em finanças educacionais.

O motivo é que poucos filhos de famílias pobres recebem notas altas nos exames nacionais. Então, eles são enviados para escolas de menor qualidade que recebem subsídios menores do governo.

O resultado é que o ensino superior está rapidamente perdendo o seu papel como um nivelador social na China e como uma válvula de segurança para jovens talentosos saírem da pobreza. "As pessoas que recebem o ensino superior tendem a ter vidas relativamente melhores", disse Wang Jiping, o diretor-geral do Instituto Central de Educação Profissional e Técnica na China.

As quatro melhores universidades da China têm resistido à pressão para expandir o número de alunos. Assim, cerca de metade de todos os estudantes universitários agora estudam em um número cada vez maior de universidades politécnicas de menos prestígio e três anos de duração.

Enquanto o governo oferece extenso apoio e empréstimos para estudantes de universidades de quatro anos, há pouca ajuda financeira disponível para estudantes de escolas politécnicas, cujas mensalidades são mais altas.

O exame nacional de admissão fortemente favorece jovens urbanos e mais ricos. As melhores universidades, concentradas em Pequim e Xangai, dão preferência a estudantes do ensino médio local admitindo-os com notas mais baixas do que os alunos de outros lugares. Estudantes rurais precisam de notas mais altas para conquistar um espaço.

Para Wu, vinda de uma família menos favorecida, o desafio de entrar em uma boa universidade se provaria muito grande.
Estudante em uma cidade grande

Wu passou no exame nacional de admissão da faculdade, mas por pouco.
Ela marcou 300 pontos de 750, um pouco acima do limite de 280 para ser autorizada a participar de uma instituição de ensino superior. Muito abaixo dos 600 pontos necessários para as melhores universidades de quatro anos do país. Então, ela entrou para uma politécnica na metrópole de Xi'an, capital da província de Shaanxi.












NYT/
Wu Caoying dividia dormitório com sete adolescentes no ensino médio

O que a prejudicou foi a sua fraqueza no inglês. Por outro lado, ela se saiu bem em assuntos chineses e outras matérias.

Sua escola primária em Hanjing já começou a ensinar inglês a partir de jardim de infância, ela disse, acrescentando que espera que a próxima geração se saia melhor no teste nacional.

Wu tentou, sem sucesso até o momento, ser uma aluna exemplar em sua escola politécnica para conseguir transferência para uma afiliada, universidade de quatro anos, onde a taxa de matrícula é 25% menor.

O governo chinês oferece algumas bolsas de estudo para estudantes de ensino politécnico, mas elas estão distribuídas principalmente com base nas notas, e não na necessidade financeira. Os melhores estudantes, muitas vezes de famílias mais abastadas que poderiam dar-lhes mais apoio acadêmico durante seus anos de formação, recebem bolsas que cobrem até três quartos de sua moradia e alimentação.

Estudantes medianos como Wu pagam o custo total e ouvem com frequência as queixas de seus pais. "Eu digo a minha filha para estudar mais para que possa reduzir sua anuidade escolar", disse Cao.
Mas estudar é quase tudo o que Wu faz. Ela diz que ainda não tem namorado: "Eu tenho amigos que têm namorados e eles discutem o tempo todo. É como um aborrecimento".

A grande questão para Wu e sua família está no que ela vai fazer depois da graduação. Ela escolheu se especializar em logística, aprendendo como os bens são distribuídos, uma indústria crescente na China, já que cada vez mais as famílias fazem compras online.

Mas a formação é a mais popular em sua universidade, o que poderia sinalizar um excesso futuro no campo. Essa é uma perspectiva preocupante num momento em que jovens recém-formados na China têm quatro vezes mais chances de ficarem desempregados do que os jovens que fizeram apenas o ensino fundamental, porque os empregos de fábrica são mais abundantes do que as tarefas de escritório.

Wu percebe as probabilidades contra ela. Entre aqueles que se formaram na última primavera, disse ela, "50% ou 60% ainda não têm um emprego".

Cao já está preocupado. A casa da família na rua em frente à mina de carvão abandonada está começando a se deteriorar com a poluição e o vento, e eles têm poupanças escassas para reconstruí-la. Seu marido foi capaz de mudar de casa depois de ter sido contratado em uma nova mina em Hanjing como líder da equipe de perfuração. A responsabilidade extra que lhe permite quase coincidir com o seu salário na mina de carvão deserto, mas na sua idade carregar uma broca pesada está se tornando cada vez mais difícil, e ele não será capaz de continuar a fazer o trabalho duro para sempre. Sua filha é a única esperança dos pais.
"Eu só tenho uma filha, então eu preciso ter certeza de que ela cuidará de mim quando ficar velho", disse Cao. "Minha cabeça está me matando pensando: 'O que será que pode acontecer se ela não conseguir um emprego depois de termos gastado tanto na sua educação?'"


NYT/ Após anos de sacrifícios, casal teme que filha não consiga emprego após a graduação

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Projeto para criar escola sem professores ganha prêmio de US$ 1 milhão


Educador indiano Sugatra Mitra, que incentiva crianças a aprenderem sozinhas, ganhou o Ted Prize

 iG SP 

Uma “escola na nuvem” sem professores, mas em um ambiente que estimula a criatividade, onde as crianças podem explorar e aprender sozinhas e ensinar umas às outras usando recursos disponíveis via internet é o projeto premiado pelo TED com US$ 1 milhão (cerca de R$ 2 milhões) para se tornar realidade.

O modelo, baseado em experiências realizadas pelo indiano Sugatra Mitra desde 1999 será aplicado em um laboratório na Índia e contará com uma rede de educadores, professores aposentados e outras pessoas engajadas em mudar a forma como as crianças aprendem.


Buraco na Parede: Alunos aprendem a usar computadores somente pela criatividade na Índia

 “Meu desejo é o de ajudar a projetar o futuro da aprendizagem, apoiando crianças de todo o mundo a desenvolverem seu deslumbramento inato e trabalhar juntos”, disse o educador em conferência no evento anual da instituição sem fins lucrativos que promove a disseminação de ideias, na Califórnia, Estados Unidos, na terça-feira.
O primeiro experimento realizado por Mitra para chegar à convicção de que o “conhecimento é obsoleto” e de que vivemos na “era da aprendizagem” foi realizado através de uma parede, onde o então professor de programação colocou um computador através de um buraco que dava em uma favela. Sem fornecer instruções, deixou o equipamento disponível para crianças mexerem nele. Oito horas depois, essas crianças que nunca haviam tido acesso à tecnologia estavam fazendo buscas e ensinando seus pares a fazerem o mesmo.
A experiência, que foi chamada de “Buraco na Parede”, foi repetida várias vezes em diversas comunidades rurais e urbanas pobres da Índia em níveis de dificuldade diferentes, sempre com o mesmo resultado. Estimuladas, as crianças conseguiam aprender sozinhas e disseminavam o conhecimento entre elas.


Reprodução
Educador indiano Sugatra Mitra tem plano de construir o futuro do aprendizado

Atualmente, Mitra lidera uma evolução desse projeto, o “ Vovó em Nuvens ", no qual professores e outros profissionais aposentados orientam estudantes pelo Skype. Mas eles não dão aulas, apenas fazem o papel da vó, que, segundo Mitra, é o de encorajamento.
Para o “Escola na Nuvem”, Mitra também espera que pessoas ao redor do mundo que acreditam na “autoaprendizagem” criem experiências semelhantes em casa, praças, pubs ou qualquer outro lugar e compartilhem seus resultados. Os aprendizados do laboratório serão oferecidos de forma gratuita para serem replicados.

TED Prize é concedido anualmente a pessoas visionárias com projetos inspiradores para mudar o mundo. 

Veja a conferência de Sugatra Mitra (em inglês)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Escolas empobrecidas: sem História nem Geografia


A escola vive uma profunda crise de legitimidade*. O mundo mudou, ficou complexo, novas demandas surgiram. Os estudantes na escola também são outros, diversos na origem e nos interesses. Os professores carecem de condições para um trabalho digno. A sociedade alterou suas expectativas referentes à escola e, assim, criou-se um complicado jogo de múltiplas contradições e, para essa complexidade, não cabem respostas e políticas simplistas.



Foto: Celso Júnior/AE

Afinal, para que a escola existe? Para formar adequadamente as gerações futuras ou para preparar os estudantes para avaliações externas como Enem, Saresp, Prova Brasil, Pisa etc.?

A que se destinariam os conhecimentos? Deveriam eles compor um mosaico para criar curiosidades, desejos e perguntas nos estudantes ou só serviriam para produzir informações para uso em testes de avaliação?

Nós, pesquisadoras de educação, ficamos mais uma vez perplexas ao nos depararmos com a nova proposta curricular do ensino público do Estado de São Paulo. Para bem aprender o Português e a Matemática, sugere-se excluir os conhecimentos de História, Geografia e Ciências do 1º ao 3º ano e manter 10% dessas disciplinas no 4º e 5º anos do currículo básico. Por essa nova proposta, ficou assim decretado: doravante, por meio desse novo currículo básico, as crianças de escolas públicas estaduais só receberão, até o 3º ano, aulas de Português e Matemática! Partindo do pressuposto evidentemente errôneo de que um conhecimento atrapalha o outro, as aulas de História, Geografia e Ciências serão eliminadas do currículo desses estudantes.

Como consequência dessa política, nas escolas de tempo integral, o aluno terá aulas em um período e, no outro, oficinas temáticas das diferentes áreas do conhecimento, algumas obrigatórias e outras eletivas escolhidas de acordo com o projeto pedagógico da escola.
À primeira vista, esse currículo está “rico” e diversificado; no entanto, pelo olhar sério e comprometido, ele estará fatalmente fragmentado. Primeiramente porque verificamos que as oficinas obrigatórias também não objetivam, do mesmo modo, um trabalho com História, Ciências e Geografia; pelo contrário, voltam-se novamente para a Matemática e para o Português.

Além disso, como trabalhar a oficina optativa, por exemplo, de Saúde e Qualidade de Vida sem os fundamentos das ciências? Intriga a essa altura saber: por que oficinas e não estudo contínuo? O que se ganha com isso? Vários equívocos nos saltam aos olhos! O primeiro deles é considerar que o conhecimento de algumas áreas é acessório, ocupa espaço e ainda impede o bom aprendizado do Português e da Matemática!

As concepções de escrita e leitura, por exemplo, acabariam por ser responsabilidade exclusiva de uma única disciplina do currículo. Não seria essa uma visão muito simplista de aprendizagem, pois parece supor que o estudante não desenvolve processos de escrita e leitura também em outras disciplinas?

Outro equívoco é a suposição de que para estudantes de escola pública o mínimo basta! Para que sofisticar com lições da história, da natureza e do lugar do nosso povo? Conhecimento científico seria enfim útil para quê?

A aprendizagem não ocorre por partes. O aprendizado é todo ele integrado e sistêmico. Um bom ensino de História expande o pensamento e as referências e o estudante, assim, tem condições para perceber relações de fatos, tempo e espaço, tão necessárias à aprendizagem matemática.

A Geografia leva nossos pensamentos para viajar em outros espaços; possibilita compreender a diversidade das sociedades, conhecer e apreciar a natureza, aprender a observar e a estabelecer conexões entre lugares e culturas. Mergulhados, assim, nesses novos referenciais, os estudantes podem compreender melhor a própria realidade e encarar suas circunstâncias com pleno envolvimento. Isso certamente repercutirá na sua vida e no seu aprendizado, com consequência, por exemplo, em estudos simbólicos e gráficos.

Como deixar de aproveitar a natural curiosidade das crianças, seu espírito exploratório, suas perguntas intrigantes acerca dos fenômenos da natureza e, dessa forma, tecer as bases de um fundamental espírito científico, que por certo ajudará a compreender a Matemática e a recriar o Português?

Será que a estratégia de oficinas, ao invés do estudo contínuo, dará conta de captar tal complexidade e também de tornar possível um processo de ensino-aprendizagem que seja capaz de construir os conhecimentos de Geografia, História e Ciências que ficaram tão diminuídos no currículo básico?

De nosso ponto de vista entendemos que a questão não é separar para empobrecer. O que vale é democratizar as possibilidades de ser e de estar melhor no mundo. E para que isso aconteça precisamos da integração total de saberes e práticas.

As crianças de classe social mais favorecida possuem, antes já de chegar à escola, uma gama infindável de vivências. As crianças de classe popular, em sua maioria, chegam já à escola destituídas desse capital cultural. Possuem outras ricas e profícuas experiências que, nem sempre, são valorizadas e transformadas na escola. No entanto, o importante é trabalhar pedagogicamente com essas experiências de modo a transformá-las em vivências socialmente válidas. Pensamos que o fundamental é ampliar as oportunidades ao invés de restringi-las; para tanto, a experiência com as diferentes áreas do conhecimento é essencial.

Preocupa-nos o risco de a função da escola, para as crianças dos anos iniciais, limitar-se, a partir da reforma proposta, ao ensino das habilidades mínimas de leitura e escrita e de cálculo, retirando-se as cores e os sabores das descobertas que se fazem no contínuo do seu desenvolvimento. Preocupa-nos que esse projeto ganhe força e se concretize em outros níveis de ensino e em outros Estados. Preocupa-nos que as oficinas contribuam mais para o esvaziamento dos conteúdos do que para a construção de conhecimentos. O que será da nossa escola pública, então? Um reducionismo dos conhecimentos, um estreitamento das concepções de ensino-aprendizagem? O objetivo final será a quantificação em detrimento da qualidade? E, se atingir índices é o foco dos processos de ensino-aprendizagem, o que isso realmente significa? Qual é a verdadeira motivação da política educacional implícita nesse movimento?

As autoras Maria Amélia Santoro Franco (Unisantos), Valéria Belletati (Instituto Federal de São Paulo), Cristina Pedroso (USP/FFCLRP) são doutoras em Educação e Ligia Paula Couto (Universidade Estadual de Ponta Grossa) é doutoranda em Educação. Todas são pesquisadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Formação do Educador (GEPEFE) – FEUSP.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os 7 mandamentos da tolerância religiosa

Bons conselhos para conseguir conviver em paz com amigos, parentes ou colegas de religiões e crenças diferentes das suas

Julia Batista, especial para o iG SP 

Getty Images
Não misture amizade e religião, a combinação nunca dá certo

A velha máxima “futebol e religião não se discutem” deveria pautar qualquer conversa, seja em família, entre amigos e colegas de trabalho. Avós e manuais de comportamento desde sempre ensinam isso.

E especialistas reforçam: proselitismo fora da comunidade religiosa é deselegante, chato e inconveniente. E pode até caracterizar crime. “As pessoas precisam se convencer da importância de respeitar a crença de cada um”, afirma a consultora de etiqueta Dóris Azevedo, autora de “Etiqueta e Contra-etiqueta ”.

Não se intimide numa situação constrangedora envolvendo proselitismo ou evangelização

Tolerância religiosa começa dentro de você. Respeite seu direito de ser diferente e não tenha medo de assumir sua liberdade mesmo diante dos amigos mais íntimos.

Como lidar então com aquela amiga, parente ou colega que insiste na pregação?
“Você tem o direito de dizer clara e firmemente: ‘eu não quero falar sobre o assunto’, mas também pode optar por uma brincadeira para tornar um pouco mais ‘light’ a 'saia justa'”, aconselha a consultora.

Ela conta que já passou por este tipo de situação algumas vezes. Em uma delas, por exemplo, Dóris estava doente na cama de um hospital, quando uma senhora se aproximou com a Bíblia. A reação da consultora foi tão imediata quanto inesperada. Ela gritou “Socorro, estão me convertendo!”. Todos os presentes riram e o episódio virou piada
.
Intolerância religiosa não é só um constrangimento, pode ser crime 

Brincadeira à parte, o assunto é sério. Liberdade religiosa existe e está garantida na Constituição, mas na prática isso nem sempre acontece. E os estudiosos estão preocupados com o avanço de ideias menos liberais e intolerantes. “A liberdade religiosa está ameaçada no País e a justiça religiosa também”, afirma a antropóloga Débora Diniz, autora do livro “ Laicidade e Ensino Religioso no Brasil ”.

“Segmentos religiosos mais intolerantes perseguem outras religiões”, acrescenta Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa .

A Comissão, organizada pela sociedade civil e sem vínculo com intituições governamentais, promove, desde 2008, a Caminhada contra Intolerância Religiosa . Ela acontece na praia de Copacabana, no Rio, no segundo domingo de setembro. A última edição reuniu cerca de 180 mil pessoas, segundo Ivanir. O resultado pode ser visto no livro, lançado em janeiro, “ Caminhando a gente se entende ”, que reúne fotos das caminhadas e textos de representantes de diversas crenças.

Mesmo a Constituição Brasileira sendo laica e protegendo a liberdade de expressão, o credo e o não-credo, a intolerância religiosa cresce e tem marginalizado determinadas crenças e seus seguidores, em especial as religiões de matriz afro-brasileira, como o candomblé e a umbanda.

“Politicamente, existe um favorecimento ao cristianismo, que oprime e impede que as minorias religiosas e as organizações não-religiosas dedicadas à difusão de uma cultura de tolerância ocupem espaços e tenham voz”, analisa Débora.

Para a antropóloga, a TV acaba favorecendo essa visão. As religiões petencostais e neopetencostais, estão se firmando no Brasil como as “religiões eletrônicas”, por causa do espaço que foram conquistando na TV aberta, em rádios e jornais. Para a antropóloga, esses programas religiosos são uma 'ameaça à liberdade de expressão'.

“As pessoas consomem, prioritariamente, a programação da TV aberta, concedida pelo estado laico a alguns grupos de comunicação, que vendem seus espaços para as igrejas milionárias. Isso quando as próprias organizações religiosas não acabam comprando diretamente canais de televisão. O público fica sem alternativa e sem acesso à informação de qualidade e, consequentemente, sem ferramentas para a formação de opinião”, reflete.

No dia a dia, a melhor forma de exercitar a tolerância religiosa é abrir espaço para a liberdade de crença e deixar cada um viver sua fé.

Os 7 mandamentos da boa convivência religiosa:

Trate os outros como você quer ser tratado


Este é o principal ensinamento de qualquer religião, credo ou filosofia. Não quer ser desrespeitado por suas escolhas, então não desrespeite o próximo. “Respeite para ser respeitado é a principal dica”, aconselha Dóris.

Respeite a crença religiosa dos outros 

Conseguir aguentar o fato de que os outros podem ter opiniões diferentes das nossas é pré-requisito para a boa convivência humana . Lembra do início da matéria? Futebol e religião não se discute. No caso da religião, não se discute e se respeita. “Tolerância uma hora ou outra pode se tornar intolerância. Deve haver respeito”, conclui Pai Gumarães de D’Ogum, presidente da Associação Brasileira de Templos de Umbanda e Candonblé.

Não brinque nem desrespeite as práticas religiosas dos outros.

Sua amiga muçulmana cobre-se com um véu? Não cabe a você fazer piada, criticar ou, pior ainda, fazer  comentários maldosos sobre essa prática. No máximo, tente entender o ponto de vista dela. Talvez você até se surpreenda.

Cuidado com a forma como você se aproxima de símbolos e rituais de outras religiões. 

Você pode até achar que não existe diferença nenhuma entre a imagem de Nossa Senhora, vestida de azul dentro do oratório que enfeita a escrivaninha da sua colega, e qualquer outro objeto ou enfeite, mas existe e é grande. Evite comentários, na dúvida, nem toque. Vale perguntar, desde que a curiosidade seja legítima, sem resquício nenhum de brincadeira.

Não deixe diferenças religiosas afastarem você da sua família.

Família não tem que comungar a mesma religião, admita que num país como o nosso, de maioria cristã, mas onde o sincretismo é forte, cada membro da família pode serguir um rumo diferente e conviver em harmonia dentro de padrões pré-estabelecidos de comum acordo, por exemplo, no Natal segue-se a tradição cristã, no Ano-novo a família se reúne para levar flores para Yemanja.

Monitore o ensino religioso do seu filho. 

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) tornou obrigatório o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras. Isso favorece a tal discussão de ideias e a troca de informações, mas também pode criar espaços permeáveis ao proselitismo. Converse com seu filho sobre isso

Evite enviar e repassar correntes religiosas por email e redes sociais

Bloquear o amigo virtual, deletar emails e cancelar assinatura são opções para não receber mensagens religiosas e de pregação.

Intolerância religiosa é crime 

A Lei n.º 7.716/89 (Lei Caó) do Código Penal diz : a) ofender alguém com xingamentos relativos à sua raça, cor, etnia, religião ou origem. (Art. 140 do Código Penal (injúria), com a qualificadora do §3º. Pena: um a três anos de reclusão). Inclui-se aqui o ato de ofender alguém com xingamentos à sua religião. 


Em São Paulo, ocorrências de natureza preconceituosa podem ser registradas na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância. A ONG Liberdade Religiosa auxilia vítimas de intolerância religiosa a procurarem seus direitos

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Ateus são mais motivados pela compaixão do que religiosos, diz estudo

Estudo da Universidade da Califórnia questiona associação entre generosidade e religião


Thinkstock/Getty Images
Ateus são mais propensos a agir por compaixão do que religiosos, segundo estudo

“Ama o teu próximo” é a regra de ouro de quase todas as religiões. Mas uma nova pesquisa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, sugere que religiosos estão menos propensos a ajudar estranhos do que ateus, agnósticos e pessoas menos religiosas.

Em três experimentos, os pesquisadores descobriram que o sentimento de compaixão sempre levava as pessoas não religiosas a serem mais generosas do que as religiosas. Os resultados do estudo foram publicados na edição mais recente da revista científica Social Psychological and Personality Science.

A pesquisa desafia uma suposição generalizada de que os atos de generosidade e caridade são em grande parte movidos por sentimentos de empatia e compaixão. A ligação entre a compaixão e a generosidade se mostrou mais forte para aqueles identificados como não-religiosos ou menos religios os .


“No geral, achamos que para as pessoas menos religiosas ajudar o outro ou não depende da força de sua ligação emocional com a outra pessoa ” , disse o psicólogo social Robb Willer, da Universidade da Califórnia, um dos autores do estudo. “Os mais religiosos, por outro lado, podem fundamentar a sua generosidade menos em emoção e mais em outros fatores, como doutrina, uma identidade comum ou preocupações de reputação.”
No estudo, compaixão foi definida como a emoção sentida quando uma pessoa vê o sofrimento de outras, que então a motiva a ajudar, geralmente assumindo os riscos ou custos pessoais da ajuda. 

O estudo focou apenas na ligação entre religião, compaixão e generosidade, sem examinar diretamente as razões pelas quais pessoas muito religiosas são menos compelidas a agir por compaixão do que outras. Contudo, os pesquisadores levantam a hipótese de que pessoas profundamente religiosas podem se guiar mais pelo senso de obrigação moral do que os não religiosos.
“Testamos a hipótese de que a religião mudaria como a compaixão impacta o comportamento generoso”, disse Laura Saslow, autora principal do estudo. A pesquisadora se interessou pelo tema quando um amigo não religioso lamentou só ter feito doações para o Haiti depois de ver um vídeo tocante de uma mulher sendo salva dos destroços do terremoto e não por uma compreensão racional de que era necessário ajudar naquele momento.

A pesquisadora se interessou pelo tema quando um amigo não religioso lamentou só ter feito doações para o Haiti depois de ver um vídeo tocante de uma mulher sendo salva dos destroços do terremoto, e não por uma compreensão racional de que era necessário ajudar naquele momento.

“Quis replicar essa situação – um ateu fortemente influenciado pelas suas emoções num ato de generosidade com estranhos – em três estudos amplos e sistemáticos”, disse Saslow. 

No primeiro experimento, os pesquisadores analisaram informações de uma pesquisa com mais de 1.300 adultos norte- americanos. E les avaliaram quanto a compaixão motivou os participantes religiosos e não religiosos a fazerem caridade em situações como doar dinheiro ou comida para um sem-teto . O s menos religiosos ou ateus saíram na frente. “Os resultados indicam que, embora a compaixão seja associada com ações sociais em todos os participantes, essa relação é particularmente forte nos indivíduos menos religiosos”, relata o estudo.  

No segundo experimento, 101 adultos americanos assistiram um de dois vídeos : um emocionalmente neutro ou outro que mostrava crianças pobres. Na sequência, eles receberam 10 dólares fictícios e foram orientados a dar qualquer quantidade de dinheiro a um estranho. Os menos religiosos deram mais dinheiro a estranhos do que os mais religiosos.
“O vídeo indutor de compaixão teve um grande efeito na generosidade desses participantes”, disse Willer. “Mas não fez muita diferença para os participantes mais religiosos.”
No experimento final, mais de 200 estudantes universitários foram questionados sobre como se sentiam no momento. Na sequência, participaram de um jogo em que receberam dinheiro para compartilhar ou não com um estranho. Numa das rodadas, os pesquisadores disseram a cada estudante que ele tinha recebido dinheiro de outro participante e que , se quisesse, poderia devolver à pessoa uma parte do dinheiro. Os participantes menos religiosos e com mais compaixão foram os mais inclinados a dividir o que tinham ganh o com estranhos do que outros.

“A pesquisa sugere que embora pessoas menos religiosas tendam a ser encaradas com mais desconfiança, ao sentir compaixão, eles podem ser inclusive mais propensos a ajudar os outros do que pessoas religiosas”, disse Willer.

do iG/SP