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segunda-feira, 28 de março de 2011

Nietzsche e a educação

"Ao fim e ao cabo, não procedemos em relação ao conhecimento de maneira muito diferente da aranha, quando tece a teia para caçar e sugar as presas: ela pretende viver graças a estas artes e atividades, satisfazer as suas necessidades - a nós conhecedores, pretendemos exatamente o mesmo ao deitarmos a mão a sóis e a átomos, como que os fixando e determinando". Nietzsche

A postagem desse tópico tem a intenção de levar à uma reflexão sobre a educação a partir das idéias de Nietzsche.

O texto é de Vicente Zatti e foi efetuado um corte para fins de publicação no blog mas sem perder seu sentido original.


A tradição do pensamento filosófico apresenta as construções éticas como reflexões sobre o agir em busca de um elemento último como seu definidor. Nesse sentido, procuram estabelecer máximas universais e validade incondicional. A ética Kantiana, por exemplo, atribui à razão o governo absoluto quanto à moralidade, o que possibilita a universalidade de sua legislação. O projeto pedagógico moderno traz uma proposta de educação como uma ética aplicada, baseando-se na metafísica aspira à universalidade.

Segundo Hermann[1] o pensamento de Nietzsche é uma das críticas mais profundas da idéia de ética universal, base para o projeto pedagógico moderno. Como profundo conhecedor do homem, Nietzsche em seu tempo, já percebeu a impossibilidade de realização dos ideais iluministas e vai procurar tirar o véu de Maia [2] da realidade, para que se veja o quanto há de crueldade por trás de ideais como moralidade, civilidade e por extensão, no projeto educacional moderno. A pedagogia pressupõe a idéia de aperfeiçoamento moral, de emancipação, crê no sentido e no aperfeiçoamento histórico. Por isso é devedora à metafísica.

A crueldade consiste na negação da vida na medida em que é submissão dos impulsos. A grande obra tanto da moral quanto da educação é a submissão dos impulsos. Para os iluministas os impulsos devem ser submetidos a uma razão universal. Nietzsche mostra o quanto há de doentio nesse pensamento metafísico. Para ele, sentido da vida, da história, os valores morais, não se estabelecem por um supra-sensível, por um a priori. "Não há assim um poder transcendental que dê sentido à vida, nem a religião, nem a moral legitimada pelo supra-sensível,pelo a priori,pelo princípio causal."[3]

Tanto o conhecimento quanto a moral são tentativas do homem em impor ordem ao mundo. A força da qual deriva tanto a capacidade de conhecer quanto a capacidade de produzir valores é a vontade de poder[4]
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[Nietzsche] usa a metáfora da teia de aranha. "Ao fim e ao cabo, não procedemos em relação ao conhecimento de maneira muito diferente da aranha, quando tece a teia para caçar e sugar as presas: ela pretende viver graças a estas artes e atividades, satisfazer as suas necessidades - a nós conhecedores, pretendemos exatamente o mesmo ao deitarmos a mão a sóis e a átomos, como que os fixando e determinando".
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Implicações Pedagógicas

Educação é uma forma que a humanidade encontrou para transmitir suas verdades às gerações posteriores, suas perspectivas científicas que estão representadas em conhecimentos e também, suas perspectivas morais, valorativas. Justamente esses elementos, são os principais recursos e produtos da luta da espécie para afirmar sua vontade de poder. Também, é por meio deles que a educação promove o enquadramento dos indivíduos na civilização.

Com Nietzsche tem início a desconstrução, pela crítica à moralidade e ao conhecimento, dos nossos profundos hábitos mentais e pressupostos metafísicos.

Ele põe em suspeita a tradição e a educação que pretendam ter universalidade ética e levar ao aperfeiçoamento moral. Assim, é questionada a possibilidade de construção de um sujeito autônomo no molde kantiano. "Nietzsche desmascara conceitos pedagógicos originários do contexto do idealismo alemão, tais como os de humanidade, autonomia, julgamento, razão, autenticidade como autotransparência e unidade de entendimento e de ação".[48]

Sendo o sujeito constituído por relações de poder e não por normas objetivas, não havendo um mundo em si, não havendo um absoluto (Deus) que garanta a universalidade; só o sujeito pode constituir-se e constituir o mundo como forma de autoconservação e expressão de sua vontade de poder. Isso tira o controle absoluto do processo educativo da mão do professor, bem como da garantia de sucesso da intervenção pedagógica, não há garantias de uma educação para o aperfeiçoamento e moralidade.

A destruição do primado moral e a transvaloração dos valores, deixa a tradição educativa sem solo. A autodeterminação individual é radicalizada, mas não mais conduzida pela idéia de aperfeiçoamento moral. Há uma autonomia inevitável em que cada sujeito luta pela sua afirmação. Como ninguém deu ao homem sua essência, cabe a ele fazer seu destino, ele é responsável pelo seu vir-a-ser.

A vontade de poder leva à transvaloração dos valores, ou seja, criação dos valores. Por isso a filosofia aqui posta nos provoca a criar, transformar, sermos os construtores da própria obra, e isso para a educação é importante, pois valoriza o desafio de criar e nos chama para essa responsabilidade. Larrosa coloca esse papel criativo como a arte de fazer com que cada um torne-se a si, desenvolva suas potencialidades. "Chega a ser o que és! Talvez a arte da educação não seja outrora senão a arte de fazer com que cada um torne-se em si mesmo, até sua própria altura, até o melhor de suas possibilidades. Algo, naturalmente, que não se pode fazer de modo técnico nem de modo massificado”.

O pensamento de Nietzsche é também para a educação uma provocação, por lançar suspeita nos fundamentos pedagógicos e um alerta, já que os sistemas de idéias não são neutros, são expressão de vontade de poder.

Por fim, abre espaço para pluralidade e aceitação das diferenças. Não há aluno ideal, nem todos se enquadram no modelo escolar moderno. Por isso temos que trabalhar com os alunos reais, aceitando as diferenças, o que abre espaço na escola para alunos que antes eram excluídos do processo educativo. Incluir sem negar as diferenças para que cada um possa tornar-se a si mesmo, é o desafio.

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